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27 de março de 2015
Cumprir todos os requisitos necessários
para sua demissão é um porre. Minha sorte é que tudo ficava no mesmo prédio:
RH, médico para exame admissional e demissional, meu chefe e boa parte das
coisas que eu fiz.
Estava na fila do médico, reparando as
pessoas que estavam lá. Meu chefe não utilizou a desculpa dos gastos, ela
realmente existia. Vi gente da seção de classificados, da seção de veículos,
assuntos gerais… Pois é galera, vamos procurar novos empregos que a situação
está ficando difícil para nós.
Olhei para a porta da entrada e vi Lara,
a mulher do horóscopo.
– Não acredito que você está aqui
Lorena! – Ela falou – Eu jurava que você era a sucessora do Tomas!
– Eu iria me demitir antes, não aguento
mais ficar sabendo sobre esportes. – Sorri – Corte de gastos?
– Até eles pensarem em outro método para
arrumar todas as coisas da empresa, sim. – Ela deu de ombros – Fui a número
quatro.
– Dez.
– Você tinha seis chances a mais de
ficar. – Ela apontou. Seus cabelos vermelhos estavam brilhantes e eu fiquei
pensando em qual tinta ela usava – Mas acabou que saímos nós duas. Sabe de mais
gente que saiu?
– Não faço a mínima ideia. – Falei.
– Senhorita Lorena Debet. – A secretária
falou – A doutora Lucíole verá a senhorita agora.
Levantei-me lentamente e caminhei até a
entrada para as salas.
As paredes brancas apresentavam portas
na cor cinza, que eram os consultórios. Havia uma mulher que parecia ter uns 28
anos na porta com os cabelos negros presos em um coque. Por um momento, pensei
que fosse a mulher da foto falando sobre Eustáquio, mas não era. Ufa.
– Doutora Lucíole? – Perguntei.
– Sim, sou eu. – Ela falou – Vamos?
Jack Sparrow havia cochilado enquanto eu
fazia carinho em sua barriga. Sorri com aquilo e levantei-me, caminhando até a
minha cozinha vermelha e prata – outra seleção de cores que eu aprovei – e
peguei um copo de vidro. Havia comprado aquele copo em uma loja de Paris. Abri
a geladeira e coloquei uma boa quantidade de água gelada em meu copo e bebi
tudo em um gole. Lembrei-me na hora de David, dizendo que eu não conseguia
virar qualquer bebida para bebê-la de uma vez.
Sorri com aquilo. David me trouxe tantas
boas memórias… Mas não é somente de boas memórias que a vida é feita, assim
como pessoas não tem apenas qualidades.
Coloquei o copo na minha pia e voltei
para a sala, ligando a minha televisão e zapeando os canais, com a finalidade
de encontrar alguma coisa que preste hoje e, por sorte, estava passando Friends
na Warner. Por mais que eu tenha assistido todos os episódios, Friends nunca é
demais. Ainda mais o episódio do casamento da Phoebe.
O consultório da doutora Lucíole era
repleto de coisas médicas. Tudo bem que ela é médica e que é um consultório
médico, mas havia muito mais coisas do que em qualquer outro consultório médico
que eu havia entrado.
Ela colocou o aparelho para medir a
pressão arterial em volta do meu braço e pediu para eu respirar fundo. Fiz tudo
conforme ela me pedia e veio o resultado. Onze por oito, o que era normal já
que a minha pressão era baixa como de costume. Minha temperatura estava normal.
E, de acordo com ela, eu estava com todas as condições para sair da empresa.
Despedi-me dela e peguei o papel médico,
falando os resultados do meu check-up. Caminhei até o elevador e apertei o botão
para ir até o quarto andar… Pela última vez.
Às vezes a vida prega algumas peças em
nossos caminhos que não conseguimos entender de primeira, mas, no final, a
certeza que temos é que vai dar tudo certo.
Assim que a porta do elevador se abriu,
eu saí. Entrei na primeira porta à esquerda, como havia feito hoje de manhã.
Passei todas as mesas com os outros funcionários, muitos escrevendo os seus
e-mails de despedida e outros comentando via e-mail sobre as demissões. Deixei
a papelada na mesa de Tomas.
– Pronto, já resolvi tudo. – Falei.
– Lorena… – Ele falou – Foi incrível
trabalhar com você.
– Foi incrível trabalhar com todos
daqui. – Sorri, enquanto as pessoas me olhavam – Muito obrigada por tudo gente,
mas, o corte de gastos cortou meu emprego. Até a próxima.
Algumas pessoas vieram me abraçar e
desejar sorte para mim e, depois de um tempo, vi que faltavam apenas cinco
minutos para o expediente acabar e arrumei as minhas coisas. Tudo conforme o
planejado.
Na verdade, não conforme o planejado,
mas conforme devia ser. Fim de um dia de trabalho qualquer, sabendo que amanhã
você não voltará mais para lá. Simples.
Ah, e ainda tem o fato de que meu
namorado está me traindo. Por que quando cai uma coisa ruim, outra coisa tem
que vir junto? Puta que pariu.
Se eu tivesse uma chance de voltar para
o passado, com certeza eu ia dizer para mim mesma “relaxa que as coisas vão dar
certo uma hora”. Isso ou dar uma porrada em mim mesma. Sorri com os meus
pensamentos e o meu toque nada discreto – Crazy in Love, da Beyoncé – me fez
rir ainda mais. Vi o visor e vi que Fernanda estava me ligando. Não a vejo
desde…
Paris.
Ah, bons tempos.
– Fala Fer. – Falei.
– Olha se não é a garota que vai à
França comigo e me esquece porque um inglês a chama para tomar um café. – Ela
comentou – Tudo bem com você?
Sorri com aquilo.
– Eu estou bem, obrigada por perguntar.
– Falei – E você gostou do amigo francês dele, então não me julgue.
– Hey! – Ela falou e bateu em sua perna
pelo barulho que escutei – Não me julgue. Então… Quais são seus planos para o
fim de semana?
– Ir até Curitiba, visitar a minha
afilhadinha, a Miranda.
– Só porque eu ia te chamar para sair
comigo e com o Pedro. – Ela falou – Droga.
– Vai ficar para o próximo fim de semana
Fer. E eu ainda tenho que comprar as minhas passagens de avião.
– Boa sorte com isso. – Ela suspirou –
Tem notícias de David?
– Nenhuma. – Senti uma tristeza em minha
voz e eu tinha certeza que Fernanda ouviu também – Na verdade, que se dane. Não
era para acontecer.
Eu havia terminado de me arrumar
totalmente. Havia tomado um banho bem demorado e vesti o meu vestido vermelho,
aquele que Eustáquio gostava mais do que tudo. Filho da puta.
Calcei um Scarpin vermelho que eu tanto
amava e peguei todas as minhas coisas e caminhei até o meu carro, que estava do
lado de fora do prédio. Retirei os meus saltos e comecei a dirigir até o Pátio
Savassi, já que eram oito horas da noite e alguns minutos.
Cheguei rápido até o shopping, graças ao
trânsito que me ajudou muito. Cheguei ao Outback que, por sorte, não tinha uma
fila métrica de espera.
Destino, seja lá o que você estiver
fazendo, apenas saiba que eu agradeço… Eu acho.
– Vou querer uma mesa para dois. – Falei
para o metri do restaurante, que me guiou até uma mesa nos fundos que
privilegiava a minha vista.
– Essa mesa pode ser, senhorita? – Ele
sorriu.
– Pode sim. – Sorri – Obrigada.
Quando o garçom parou em minha mesa,
pedi um copo de vinho. Caro o vinho daqui, treze reais uma simples taça. Com treze
reais, eu compro um vinho. Um vinho ruim, mas eu compro.
Olhei ao redor do local e vi Eustáquio.
Seus cabelos loiros estavam desarrumados e seus olhos azuis estavam
esperançosos. Ele estava usando um terno com uma blusa branca por baixo e seu
sorriso estava despreocupado. Então eu vi uma mulher com vestido longo e
amarelo e longos cabelos negros…
Os dois haviam se beijado. Segurei a
minha pose e esperei um tempo. Assim que a mulher se virou, percebi que era a
mulher do Whats App. Deixei 15 reais na mesa, abaixo do porta copo e andei até
Eustáquio e a mulher com o meu copo de vinho.
Ah querido, você vai desejar nunca ter
feito isso comigo.
– Que bom te ver aqui, amor. – Falei, frisando no amor.
A expressão de Eustáquio foi inapagável.
Já a mulher ficou com as mãos em sua boca, fingindo surpresa.
Que o show comece.
– Eu… Eu posso explicar. – Ele falou.
– Não precisa explicar. – Tomei um gole
do meu vinho – Está tudo acabado.
Ele olhou para mim, com uma expressão de
dúvida. Aposto que ele estava esperando choro, esperneio e um “por que você
está me traindo” assim como nos filmes de drama. Ah, mas se ele está esperando
que eu faça um escândalo, ele vai ficar esperando.
– Mas eu…
– Você não me ama. – Falei – Vamos ser
honestos. E, sua blusa precisa de um toque mais extravagante.
Joguei o restante de vinho – que ainda
era muito – em sua roupa, o que fez com que a acompanhante/noiva dele olhasse
para mim como se quisesse fazer isso a muito tempo.
Caminhei lentamente até a saída e deixei
o copo na mesa do metri. Senti algo me puxando e vi que era a mulher que, até o
momento não havia se pronunciado.
– Hey… An… Obrigada. – Ela falou –
Espero que ele aprenda uma lição agora.
– Isso, deixe ele lá, sozinho.
– Eu não farei isso. – Ela falou – Posso
nunca mais encontrar alguém!

Ela entrou no restaurante, deixando-me sozinha
lá. Entrei em meu carro e dei partida até o meu apartamento.

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Juki

Graduanda em letras e canceriana de 22 anos na identidade, mesmo com cara de 17. Apaixonada por games, música e literatura, viciada em animes e mangás e louca por chocolate.

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  1. Guilherme

    27 de março de 2015

    Oi!
    Não li os outros capitulos mas gostei desse, achei a ideia bem legal, vou conferir os antigos.
    Abraço!