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15 de maio de 2015

O poder que Fernanda tem para convencer alguém é incrível. Um dia atrás no mesmo horário eu estava agonizando porque meu namorado me traiu e tudo mais. Agora eu estou fazendo minhas malas para ir até Paris. 
Olhei a situação do meu passaporte por questão de utilidade pública e ele estava válido. Ainda bem, afinal a Fernanda gastou cerca de cinco mil reais com essas passagens. Para Fernanda era mais fácil, pois o noivo dela trabalha em empresas de turismo e consegue descontos e pacotes mais baratos caso a compra for feita com ele, mas é um bom dinheiro. Que eu consiga pagá-la sem emprego.
Pensei infinitas vezes, fiz um tanto de perguntas, mas, no final das contas eu havia colocado o último par de meias em minha mala. Ai cacete, eu estava mesmo indo realizar um dos meus sonhos de ir até a Europa.  Amanhã, eu não tinha nem tempo de falar com minha mãe, mas ela com certeza vai me pedir um ímã de geladeira. E a minha irmã, um globo de neve, assim como o que eu tenho de Londres. Fechei a minha mala e disquei o número da minha mãe.
– Olá mãe! – Falei assim que ela atendeu o telefone, no quinto toque.
– Como vai você, filha? – Ela falou – Fiquei sabendo que terminou com o Eustáquio.
– Quem te contou?
– Fernanda.
Claro, não podia ser outra pessoa.
– E ela comentou que vai te levar para a França. – Mamãe falou – Lembre de levar casaco, celular, câmera e dinheiro para comprar coisas para mim.
– Que coisas?
– Sei lá.
Senhoras e senhores, a minha mãe.
– Defina “sei lá”. – Dei de ombros, colocando meus cabelos recém pintados de preto atrás da orelha – Ah, e pintei o cabelo.
– E como está?
Olhei para o meu reflexo no espelho. Eu estava parecendo com ela.
– Estou parecendo com você. – Falei – Ainda mais que eu cortei em Chanel.
– Isso tudo por causa dele?
– Sim – Suspirei profundamente – Uma vez na vida eu queria ser a garota típica. Sabe como é…
– Você nunca foi assim filha. Está tudo bem?
– Eu fui demitida também. – Falei como um suspiro – As coisas não estão nada bem para mim. É capaz de eu chegar à França e não conseguir voltar.
– Eu não reclamaria se isso acontecesse comigo. – Ela brincou – Você tem que ser menos pessimista, filha!
– A realidade me deu um tapa na cara, só isso.
– Mas você só está passando por uma fase ruim. – Ela falou – As coisas vão melhorar, assim como naquela vez que você passou mal durante a prova e ficou de recuperação em biologia. 
Lembrei-me daquele dia. Eu estava passando muito mal e fiz a prova correndo, sem ler as questões nem nada, ainda bem que a minha prova era somente de múltipla escolha. Depois de um tempo, mamãe chegou à escola e me levou ao hospital, cujo médico disse que eu estava com gastrite. Dois dias depois uma coleguinha de escola me liga, falando que eu perdi média na prova. E isso, no caso de uma pessoa que amava estudar, era pior que qualquer doença.
– Eu quase fiquei de recuperação. – Lembrei – Consegui recuperar com um trabalho que fiz.
– Mas mesmo assim, filha… Arrisque-se.
Quando sua mãe fala para você se arriscar, é sinal que você realmente não se arrisca. Li isso em uma revista, e, apesar de nunca concordar com isso, estou sentindo que preciso parar de tentar cronometrar ou controlar a minha vida. 
– Que horas é o voo?
– Sete horas da noite – Falei, olhando para a passagem que Fernanda havia deixado comigo – Daqui a pouco eu irei ao aeroporto. Fernanda vai passar aqui mais ou menos cinco horas da tarde.
– É melhor você passar perto da casa dela, não acha? – Mamãe falou, preocupada – Você conhece a cabeça daquela mulher. É capaz de vocês chegarem lá na hora que o avião saiu.
Sorri. Olhei para a passagem e pensei no assunto.
– Vou terminar de empacotar as minhas roupas e te ligo quando estiver na França.
– Se quiser trazer um genro francês, eu acho uma coisa boa também.
Sorri com aquilo.
– Vou passar duas semanas lá, não vou me casar nesse tempo. – Comecei a gargalhar.
– Vai saber. – Ela falou – Lá em Las Vegas tem gente que se casa duas horas depois que se conhece.
– E se separa três horas depois do efeito da ressaca. – Falei – Até depois mãe.
Desliguei o celular e encarei a mala. Contei todas as roupas que eu iria levar – mania do meu perfeccionismo, não tente entender – e espero que eu consiga comprar mais roupas lá ou procurar algum lugar para lavar as roupas. Nunca fui muito fã de comprar roupas, sempre preferi comprar livros. Os livros sempre foram melhores que as roupas, tanto que até hoje uso roupas que comprei quando eu tinha cerca de vinte anos de idade e hoje estou aqui com vinte e cinco com as mesmas roupas. Nem mais largas, nem mais justas. Obrigada genética e algumas horas na academia.
Fechei a mala e fui organizar a minha bolsa de mão. Como filha mais velha de um casamento que não deu certo, sempre fui mais independente e conseguia me virar sozinha, minha mãe havia me ensinado isso muito bem. E eu havia mostrado essa capacidade para a minha irmã mais nova, então minha mãe criou duas mulheres independentes que acreditavam que somente elas poderiam trazer a própria felicidade.  Lembro-me até hoje de ficar brincando de Barbie e ela atiçar minha criatividade, falando “faça uma Barbie que não precise do Ken”. Ela devia estar me preparando para o futuro, já que eu acredito que ela tem superpoderes. Separei meu passaporte e conferi a minha carteira. Identidade, CPF, carteira de motorista, dinheiro, tudo aqui. Tudo aqui como eu sempre havia deixado.
Conferi as horas. Três horas da tarde. Já havia passado tanto tempo assim? Não me lembrava. Na verdade, não me lembro nem de ter almoçado. Isso Lorena, mostre para quem lê essa coluna que você é uma pessoa equilibrada e que vai viajar para a França sozinha sendo que você não se lembra de ter comido alguma coisa. Mas, mesmo que se eu vomitasse, não ia funcionar muito. Quando estou ansiosa, não consigo comer e não sinto fome e a fome é exatamente uma coisa que eu não estou sentindo agora. 
Disquei para Fernanda, combinando o horário de chegada até o aeroporto. Afinal, teríamos que aguentar 19 horas de voo, com paradas em São Paulo e em Lisboa. Obrigada Netflix. E que a bateria em nossos celulares e tablets dure.
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Juki

Graduanda em letras e canceriana de 22 anos na identidade, mesmo com cara de 17. Apaixonada por games, música e literatura, viciada em animes e mangás e louca por chocolate.

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