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19 de junho de 2015
Eu sou uma pessoa instintiva e, muitas vezes, acabo me ferrando por causa disso. É um defeito meu que herdei de mamãe. Caminhei em direção a porta e soquei-a. Não me pergunte o porquê fiz isso, eu somente fiz. 
Olhei para o meu quarto e tentei imaginar mamãe neste local. Minha mãe nunca fora aquela pessoa que aceita tudo da primeira vez, ela é persistente e muita vez acaba convencendo muitas pessoas por causa de sua resistência. Só que, se eu seguir meu instinto, posso acabar em uma situação um tanto quanto desagradável. Deitei em minha cama e senti algo diferente ao realizar tal ação. Era como se fosse um marco: um adeus para a vida que eu levei, a perspectiva de mudança, um novo começo.
E eu ainda não estava pronta para nada disso, queria continuar precisando trabalhar no dia seguinte, vivendo em meu apartamento, como se nada fosse atrapalhar a minha vida, ela ia seguir sempre o mesmo ritmo. 
Ó destino, como eu te odeio.
Ouvi algo batendo a minha porta e fui conferir o quem era, ficando surpresa com a presença de uma criança do lado de fora.
– Hm… Oi. – Falei, sorrindo para ela – Qual o seu nome?
– Eu sou Fernanda. – A menina sorriu – E o seu?
– Katherine. – Falei.
Ela tinha grandes olhos castanhos e seus cabelos eram ruivos com cachos abertos, o que realçava a sua beleza infantil, sua pureza. Estava usando um vestido rosa claro com sapatilhas, fazendo-a se assemelhar a uma boneca em tamanho real.
– Eu fiquei sabendo que uma novata iria aparecer hoje. – Fernanda sorriu – Achei que ia ser outra menininha como eu.
– Mas eu sou uma menininha.
Isso era verdade, eu tinha tamanho para uma menininha. Não tão jovem como Fernanda, mas uma garota de quinze anos, já que meu crescimento parou por aí.
– Eu sei, mas eu queria alguém como eu. – Ela falou – Você tem irmãos? Ou uma irmãzinha?
– Não tenho. – Falei – Sou filha única.
– Eu também. É muito chato. Você está sozinho, não tem ninguém.
– Se quiser, você pode me considerar como sua irmã.
– Mas não vai ter graça brincar com você.
Eu sempre quis ter uma irmã. Vivia pedindo, mas ela nunca rendia assunto e, com os acontecimentos recentes, vejo os motivos para ela nunca ter me dado uma irmã ou um irmão. Imagina a minha irmã ou o meu irmão, atualmente com cerca de treze anos aproximadamente e vendo a irmã matando alguém? E vendo a mãe morrer? E indo até uma cidade totalmente diferente, somente conhecendo a irmã? Se eu, que estou aceitando “tranquilamente” estou planejando pular do último andar desse prédio, imagina o que uma irmã iria querer?
 – Você gosta daqui? – Perguntei.
– Adoro. – Ela falou – As pessoas são muito legais.
Ela sentou-se na “minha cama”. Ainda é difícil falar isso. Minha cama, na verdade está no meu apartamento, em Belo Horizonte, não aqui. Eu sentei ao lado dela e, enquanto ela tagalerava sobre sua família, sobre a sua vida aqui, sobre muitas coisas. 
– Mas você aceitou tudo isso… Bem?
– Eu tive que aceitar. – Fernanda deitou-se em minha perna – Elliot me ajudou. Ele é muito legal e ele me ajudou a ser uma pessoa mais forte. Mamãe e papai morreram para me salvar e eu vou ficar aqui, custe o que custar.
Involuntariamente, comecei a fazer cafuné em seus cabelos cacheados.
– Isso é legal. – Ele falou – Continue.
Continuei fazendo carinho em seus cabelos e a garotinha logo mais adormeceu. Ótimo, agora eu ia ficar sem saber o que fazer com ela deitada em meu colo. Resolvi deixar ela no seu canto e observei um garoto passando pelo corredor e entrando no quarto, esboçando um sorriso.
Ele era o típico protagonista de filme americano: cabelo loiro bagunçado, com olhos azuis, roupas despojadas e calça jeans. Seus traços eram marcantes. Não tão marcantes quanto os de Elliot, mas eram destacáveis.
– Pelo visto, você conseguiu acalmar a fera. – Ele falou – A propósito, sou Lucas.
– Katherine.
– A filha do…
– Sim, a filha do cara que ferrou com a vida de todos daqui e que vai acabar com a vida de mais muita gente. – Falei – Desculpe-me, mas muita gente está falando coisas sobre minha família e eu não agüento mais.
– Fique calma. – Ele riu e se sentou do meu lado – Eu não vou te julgar pelos seus pais.
– Acho que você é o único. – Falei – E, bom, Fernanda.
– Fernanda é um doce. Ela perdeu os pais quando tinha quatro anos de idade e nós fazemos de tudo para que ela fique tranqüila com tudo, mas mesmo assim nós a treinamos.
– Mas ela está perdendo a sua infância.
– Todos nós aqui perdemos alguma etapa de nossas vidas. – Ele se levantou e cruzou os braços – Eu perdi a adolescência, assim como Anne. Fernanda vai perder sua infância para, talvez como adolescente, ela tenha um futuro melhor. E Elliot… Bom, ele está perdendo a vida inteira aqui. 
Olhei para ele. 
– Isso é verdade? – Perguntei.
– Sim. Ninguém sabe o que aconteceu de verdade, mas quando o pequeno Elliot nasceu, era uma confusão para te achar. Tanto que, nessa confusão, ele acabou perdendo o pai.
– Confusão?
– Uma guerra antes da guerra. – Ele explicou – E é melhor que você esteja pronta quando a guerra de verdade acontecer.
– Estarei na linha de frente?
– Muito provavelmente. – Ele respondeu.
– Não é bem mais fácil me matar e entregar o meu corpo para John embrulhado em um papel decorado? A dona desse lugar deve apoiar essa ideia, já que eu nem conheci a criatura e ela já me odeia.
– Ela acha que você vai ser como a sua mãe. – Ele explicou – Acredita que Martha fez errado em se esconder com você;
– Por minha causa que o pai do Elliot morreu, certo?
– Sim. – Ele respondeu – Mas não acredito que seu pai que o matou. Praticamente todos que estavam no prédio durante o ataque morreram por várias pessoas.
– Mesmo assim, eu não quero pensar sobre isso. – Falei – Durante 24 horas eu estou vivendo o que nunca pensei que viveria. Matei o meu ex-namorado, uma garota aleatória, fiquei bêbada em uma festa, dormi em um carro dirigido por um desconhecido, praticamente vi minha mãe sendo assassinada, viajei e estou aqui.
– Agora respira.
Inspirei e respirei, rindo disso logo em seguida. Lucas era um cara gentil, não parecia querer me matar e nem que eu morresse. O terceiro que tem essa reação, contando com Sarah e Fernanda. Elliot era uma incógnita nessa situação, enquanto a mãe dele preferia que meu cadáver estivesse aqui.
– Vou levar a Fernanda para o quarto dela. – Ele falou – Você vai querer mais alguma coisa?
– Pizza. – Falei, sem pensar – Desculpe, falei o que eu queria e eu estou com fome.
Lucas riu enquanto pegava Fernanda com delicadeza, como se a garota fosse uma boneca frágil.
– Acho que tem comida na geladeira do restaurante, mas não garanto que seja pizza.
Ele pegou a criança no colo e foi caminhando para a saída. Quando ele saiu do meu quarto, fui atrás dele.
– Obrigada. – Falei, enquanto caminhava para o elevador.
Cheguei até o elevador, apertando o botão do térreo. Muito provavelmente todos estariam treinando nesse exato momento, o que facilitava a minha situação. As portas se fecharam com cuidado e alguém interrompeu as portas de se fecharem totalmente. Elliot.
– Olá. – Ele falou – Nós vamos treinar.
– Onde? – Respondi.
– Quando eu falo “nós”, eu não vou incluir você. – Falei – Você ainda não tem capacidade de brigar com alguém e não tem poderes. Vai ser inútil.
– E se eu conseguir?
– Eu duvido muito. – Ele deu uma risada – Você é uma pessoa que ficou parada durante anos de sua vida e agora resolve aparecer do nada para treinar com pessoas bem mais instruídas que você?
– Eu treino em sacos de pancada. – Falei.
– Um saco de pancada nunca vai ter a mesma eficiência que uma pessoa.
– Então eu treino com alguém!
– Não Katherine. – Ele falou em um tom autoritário. Minha vontade era de quebrar sua cara – É complicado para você treinar.
Ele saiu do elevador e eu o segui, com passos largos para acompanha-lo.
– Não vai adiantar me seguir. – Ele virou-se – Você não vai treinar agora. Apenas quando eu falar que está tudo bem para você sair treinando por aí. 
– E quando isso vai acontecer?
– Não sei, talvez nunca.
– Então porque me trouxe até aqui, sendo que se eu não treinar vou morrer da mesma forma que se anunciassem meu paradeiro nos jornais?
– É mais seguro.
– Seria mais seguro se eu treinasse.
– Não, não seria. – Ele falou, mais sério – Você é um perigo. É uma bomba que pode explodir a qualquer momento. Se você tiver realmente algum poder, pode se tornar uma máquina mortífera. E, se você treinar, o impacto vai ser pior. 
Ele saiu, me deixando parada ali, pensando em suas palavras.
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Juki

Graduanda em letras e canceriana de 22 anos na identidade, mesmo com cara de 17. Apaixonada por games, música e literatura, viciada em animes e mangás e louca por chocolate.

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