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13 de fevereiro de 2015
O prédio de minha mãe ficava na área hospitalar, já que ela gostava mais dessa região além de trabalhar naquela região, o que facilitava o “trabalho”. Pensei em ir até a casa de mamãe e de lá fugir; mas fugir para onde? Em todos os lugares que eu estivesse, Elliot iria me achar.
Era um saco aquilo.
A sensação de estar sendo perseguida era algo que eu nunca gostei e não iria começar agora. 
Elliot estacionou o meu carro assim que chegamos ao prédio de mamãe. O prédio era branco, com uma guarita sem guarda – algo que mamãe já me falava que considerava normal – e vários espaços para o estacionamento de visitas, algo que Elliot rejeitou já que “vou apenas me despedir”. Abri a porta do carro e toquei campainha com o número 411. Algum tempo depois, mamãe atendeu o interfone.
– Sim? – Ela perguntou.
– Sou eu mãe. A Katherine. – Sorri e ouvi passos caminhando em minha direção e olhei para trás. Elliot estava se aproximando vagarosamente.
– Que bom que você está aqui, filha! – Ela abriu o portão – Pode subir!
Empurrei o portão e entrei, olhando para trás logo em seguida e vi Elliot atravessando também. Subi um pouco a rampa, para que ele fechasse o portão com mais cuidado e não esbarrasse em mim. 
Assim que ele me olhou, desviei o olhar e continuei subindo até o hall principal do prédio, tentando recordar sobre alguma coisa que ocorreu ontem. Eu havia falado com um cara e Elliot impediu “para o meu próprio bem”. Walter, muito provavelmente, nunca mais vai querer sair comigo. E quem é o culpado? O ser de cabelos loiros que quer que eu morra, mas se eu falar de morte ele fica nervoso.
E ainda dizem que as mulheres é quem são complicadas.
– Katherine… – Ele falou e eu olhei para ele – Tudo bem?
– Estou… Não sei. – Falei – Você quer que eu mude minha vida que está super bem.
– Você quase morreu…
– A partir do momento em que eu te vi! – Falei e olhei nos olhos dele – Quando eu vi você que essas coisas começaram a acontecer.
Ele ficou calado e eu continuei a subir a escadaria. Finalmente, chegamos ao quarto andar e minha mãe estava me esperando na porta. Seus cabelos estavam negros e seus olhos verdes estavam tranqüilos. Dei um abraço nela e sorri.
– Tudo bem, mãe? – Falei.
– Quem é esse? – Ela perguntou.
– Sou Elliot Nogueira. – Ele falou – Filho de Augusto, um de seus ex-namorados.
– Como…
– Você sabe como eu sei. – Ele falou – Ana me contou tudo.
– Quem? – Eu e mamãe perguntamos juntas.
– Minha mãe. – Ele falou.
– Fico contente que Augusto encontrou alguém que o ame. – Ela sorriu – Em que posso ajudá-lo?
– A convencer sua filha a ir comigo para Cruzeiro do Sul antes que ela morra.
– Ela não vai.
Eu te amo mais ainda mãe.
Elliot a encarou. Com toda a certeza ia mudar a forma com a qual ela respira para tentar convencê-la.
– Com licença. – Uma garotinha falou. Ela era loira, usava um vestido rosa e estava segurando um bichinho de pelúcia.
– O que foi, querida? – Minha mãe falou – Quer ajuda?
A menina deixou o bichinho de pelúcia no chão e tomou forma de um lobo. 
Eu não acreditava naquilo. Era como se tudo estivesse conspirando para que eu matasse todos que aparecessem na minha frente. Isso é, se eu tivesse alguma arma mesmo.
– Puta que pariu, todos querem me matar? – Falei – Na boa, você é mais uma pessoa que trabalha para o meu pai?
– Você é a filha de John? – Ela falou.
– É sou eu sim, aí você briga comigo e o Elliot te mata com raios. – Falei – E aí a conversa vai voltar como se não tivesse acontecido nada.
A garota tomou a sua forma “normal”. Uma mulher, mais ou menos da minha idade, com olhos azuis, o mesmo vestido rosa e os cabelos loiros não estavam compridos, estavam em um corte Chanel. 
– Eu só quero falar com Martha. – Apontou para minha mãe.
– Ah, mas você não vai mata-la mesmo. – Avancei para ela, que se transformou em um gorila e me jogou na parede, fazendo com que eu batesse a cabeça com força antes de cair no chão.
Senti como se tudo estivesse girando. Elliot tentou eletrizar a garota, mas ela havia se transformado em um urso parda, levando minha mãe para dentro do apartamento. Só ouvi um “Salve Kat” antes de gritos e o som da porta batendo.
Uma lágrima teimosa escorreu o meu rosto. Mãe… Será que ela havia…
Escuridão.
E o barulho de passos caminhando em minha direção.
Acordei com Elliot ao meu lado, me levando para algum lugar que eu desconhecia. Muito provavelmente Cruzeiro do Sul.
– O que houve… – Falei – Minha… Minha mãe?
– Espero que ela tenha sobrevivido. – Ele falou – Ela pediu para eu te salvar e…
– Obrigada. – tentei simular um sorriso, mas eu não estava em clima para isso. 
Minha mãe muito provavelmente havia morrido, mais gente havia morrido e mais gente vai morrer.
Senti vontade de chorar, mas não ia fazer isso na frente de Elliot. A raiva e a vontade de vingança eram maiores. 
A estrada para Cruzeiro do Sul ficava muito distante da capital e fora isolada, exatamente para não ter nenhum risco de ser encontrada logo após. Depois de três longas horas de viagem, comecei a reparar na então cidade destruída que estava ao meu redor. Observei as casas totalmente destruídas e muitas vezes reduzidas ao pó, alguns móveis rasgados ou também retornados ao pó. Chegamos a uma praça que estava até esverdeada e eu conseguia imaginar crianças brincando aqui, se divertindo umas com as outras enquanto os pais conversavam.
A cidade parecia ser muito feliz e muito calma, o que fez involuntariamente uma lágrima descer pelo meu rosto. Todas as pessoas inocentes que tinham um longo futuro pela frente, todos os pais que incentivaram seus filhos a seguirem seus sonhos… Tudo destruído. Indiretamente eu sinto um peso na consciência, pois sei que a culpa dessas mortes é minha. Mesmo eu não tendo consciência para onde eu estava indo quando levei a culpa, mas a culpa continua minha.
– Foram todos mortos? – Perguntei e olhei para Elliot, que tinha seus olhos azuis fixos na estrada – Todos os habitantes?
– Que eu saiba sim. – Ele falou – Ainda fazemos buscas para saber como eles estão, ou até tentar achar alguns corpos e entregá-los para as famílias, mas mais de vinte anos se passaram Katherine.
– E se algum deles foi atingido por algum tipo de mutação? – Perguntei – Eu não sei como isso funciona ainda.
– Quando estamos criando um mutante, usamos o mesmo método que antigamente, pegamos a seringa com o material de um mutante e injetamos. – Ele explicou com calma – Geralmente é o sangue.
Prestei atenção na estrada e passamos por um trilho de trem abandonado.
– Esta estação era muito movimentada. – Ele falou – Após a destruição, foi construída outra ferrovia, esta daqui não funciona mais.
– Você morava aqui. – Falei – Não é?
– Sim. – Ele sorriu – Nasci alguns meses antes de você e passava o tempo aqui. Depois da ameaça de John, meu pai me treinou e depois da morte dele continuei treinando, como se não houvesse amanhã.
– Você é o mais seguro para matar John, treinou para isso. Então por que eu?
– Você tem o sangue dele. – Elliot me explicou como se fosse óbvio – Tem o poder dele. E o poder da sua mãe. Se você conseguir conciliar os dois e evoluir o seu terceiro poder, vai se tornar imbatível.
– Mas eu não sei se quero lutar. – Falei – Eu não sei lutar, não tenho habilidades e acho que não vou desenvolver nenhum poder.
– Vamos treinar você. – Ele falou, me interrompendo – Você vai ficar experiente, vai desenvolver sua habilidade, vai aprender a lutar.
– E irei morrer quando encarar um cara mais forte. 
Mesmo que ele negasse, eu estava caminhando para a morte certa. Mesmo que minha mãe houvesse me convencido, eu iria acabar morrendo no meio de toda essa guerra.
Ele bufou e fez a curva, passando por uma placa que estava caída.
– Uma vez na guerra, não há volta. – Ele falou – E nem há como amenizar os efeitos. Você estava condenada a morrer desde o dia em que John soube de você.
Adorei ficar conversando com Elliot. Em uma hora ele era a pessoa mais incrível do mundo, contando sobre tudo o que havia passado no prédio e como a vida dele era cheia de treinamento. Outras horas ele me fazia sentir como se eu tivesse a melhor vida do mundo, falando sobre sua dieta rigorosa. Outras vezes, como agora, ele me fazia querer pular em direção ao asfalto quente e ficar lá, parada, esperando que um caminhão me atropelasse.
– Você devia ser mais simpático. – Falei – Vai ficar solteiro assim.
– Eu prefiro assim.
Poucas palavras que me atingiram como um tapa na cara seguido de um soco no estômago.
Chegamos até o que parecia ser o centro da cidade. Havia uma igreja grande a nossa frente e uma praça enorme, cheio de comércios ao redor. Mais de vinte anos haviam se passado e nada da polícia aparecer por aqui e fazer uma retirada dos corpos – se é que restou algum.
Elliot fez a curva e entrou em uma rua cheia de lojas variadas que continha uma decida imensa decida para ser seguida por uma subida depois. Tudo bem que em Minas Gerais o que mais tem é morro, mas esse aqui já estava de brincadeira, conseguia imaginar as crianças brigando com os pais de sede ao chegarem até a praça após alguns longos minutos de caminhada com a mãe entrando em todas as lojas.
Lembrei-me de minha mãe naquele momento. Com certeza ela estaria orgulhosa de mim enquanto tenta explicar quem é a garota ruiva ao lado dela nas fotos de família. Penso em qual foi a história que ela usou. Provavelmente, para minha família, não me chamo mais Katherine. Mamãe deve ter escolhido um nome comum para mim. Ana. Ou então Amanda. E um sobrenome mais comum ainda. Soares ou Pinheiro. 
Retirei meu celular do bolso e encarei o fundo de tela. Era uma foto minha com sete anos de idade. Meus cabelos castanhos estavam mais avermelhados naquela época e eu tinha sardas espalhadas pelas bochechas, que já sumiram. Usava um vestido azul enquanto fazia bico e minha expressão era de raiva, por não querer tirar foto naquele momento. Eu queria muito voltar àquela época. Sem preocupação com emprego. Sem ter que aprender a lutar. Sem ter um homem chato te arrastando para um lugar onde todos odeiam o seu pai – e, muito provavelmente, vão te odiar. Sem ter que matar meu pai que eu nunca conheci.
– Katherine, desligue seu telefone e jogue-o fora. – Ele falou – Se preferir esmagar o chip, eu prefiro.
– Você vai ter que me obrigar. – Falei de forma mais seca possível – Vou ligar para minha mãe assim que chegar.
Senti o aparelho em minha mão queimando e ele soltou faíscas e desligou logo em seguida. Tentei ligá-lo, mas começou a sair fogo da tela do objeto e eu o joguei fora. 
– Obrigado pela compreensão. – Ele falou.
– Você fez isso. – Falei – Você está me devendo um celular novo.
– Se John souber como rastrear celulares, saberia exatamente como te encontrar e te matar.
– Ele estaria me fazendo um favor.
– Você está exaltada, não sabe o que está dizendo.
– Tenho perfeita noção do que eu estou fazendo. – Falei – Estou sendo arrastada até um lugar onde serei obrigada a lutar, depois brigarei com meu pai até a morte se eu não cometer suicídio antes. 
Elliot deu uma freada brusca e minha cabeça foi arremessada para frente. Como o carro não tinha air bag, ela foi direto até o vidro, que ficou marcado. Coloquei a mão em minha cabeça e retirei. Em poucos segundos, a minha mão estava molhada e retirei-a, observando o sangue. Lágrimas de raiva saíram do meu rosto enquanto ele me olhava.
– Nunca mais pense em cometer suicídio. – Foi a única coisa que ele falou e aquilo fez com que eu ficasse com mais raiva. Soltei meu cinto e abri a porta, saindo do carro.
– Katherine! – Ouvi que ele sair do carro, mas não olhei para trás, continuei andando para frente.
Entrei na primeira loja de roupas que eu vi pela frente. Estava claro por causa do horário, já que não era meio dia ainda. Havia várias roupas atrás do balcão que parecia ser de carvalho e eu passei para trás dele, pegando uma roupa no tamanho “P”. Quando puxei algo macio, percebi que eram roupas de bebês.
Elliot entrou na loja armado e eu dobrei a roupa, colocando em minha testa logo em seguida.
– Você está segura? – Ele perguntou.
– Não, eu estou com você. – Falei – Ainda não entendo o motivo de minha ida. Essas coisas só acontecem quando eu estou com você.
– É…
– É mais seguro? – Falei – É mais seguro eu estar em um prédio com pouco mais de dez pessoas enquanto há uma cidade inteira, com mais de cinco mil habitantes? É mais seguro morrer tentando do que de velhice?
Eu estava chorando novamente.
Deixe de ser covarde, você já me matou de qualquer jeito, uma voz disse em minha cabeça. A voz de Patrick. Eu o havia matado e ele iria me atormentar para sempre, como se já não bastasse ele ter me atormentado vivo.
– Você vai aprender a se defender e…
– E serei uma assassina! – Disparei – Na verdade, eu já sou uma, tenho minha primeira vítima em uma escola e a segunda está em algum lugar da cidade. 
Elliot segurou meu braço, mas eu me desviei.
– Não me toque. 
Ele me encarou e eu respirei profundamente. Senti a mesma calmaria, mas desta vez ela não me atingiu como antes. Eu estava sã e não estava calma. 
– Você vai precisar aumentar seu vento para me drogar dessa vez. – Falei – Não vou me acalmar com isso.
– Eu não quero te acalmar.
Respirei mais uma vez e me senti mais calma, mas não uma calma para eu abaixar as minhas defesas. Ele iria me fazer dormir. Ainda com uma mão em minha testa, tentei empurrá-lo para frente com o outro braço, mas acabei caindo em seu ombro, sem ver e ouvir mais nada.
Eu estava deitada em minha cama e coberta até o pescoço com o meu cobertor. Olhei para o lado e observei as horas. Eram dez horas da manhã e eu senti um cheiro conhecido no ar. Panquecas. Não qualquer panqueca, mas as panquecas que minha mãe fazia sempre no dia do meu aniversário enquanto falava comigo “quando você se casar, ensinarei a receita para seu marido, aí ele vai te agradar”. 
Levantei da cama, observando meu quarto. Ele estava com as paredes pintadas de branco e havia uma boneca da Branca de Neve ao lado do armário. Calcei as minhas pantufas de onça e caminhei até ela e segurei-a, lembrando-me de quando eu era uma garotinha e vivia andando com a mesma boneca – até a marca no vestido onde eu mordi até arrancar um dente de leite estava lá. 
Saí do meu quarto com calma, fechando a porta logo em seguida. Caminhei até o meio da sala e percebi que não era minha mãe que estava na cozinha, era Elliot.
– O que você faz aqui? – Perguntei e ele desligou o fogo, caminhando em minha direção – Você tinha ficado lá em Cruzeiro do Sul.
Ele estava parado em minha frente e colocou as mãos ao redor da minha cintura, puxando-me para perto dele. Como se eu não tivesse vontade própria, encostei minha cabeça em seu peito e ouvia seu coração batendo calmamente, ritmo sugerido por sua respiração. 
– Eu voltei. – Ele falou e afastou meu rosto, para que eu olhasse em seus olhos azuis, tão profundos – Não posso te deixar sozinha.
Fechei meus olhos enquanto sentia ele se aproximando, mas antes de nos beijarmos ele bateu em minha testa e cambaleei para trás, colocando minha mão onde foi o soco e ela ficou molhada, olhei para ela e estava repleta de sangue. Olhei para o lado procurando um pano, mas em cima da minha mesa estava o corpo de Patrick, com os mesmos olhos abertos, parecendo querer me matar. Olhei para o outro lado e a mulher que eu matei estava lá.
Elliot deu passos até a ilha da cozinha, pegando algo que não prestei atenção.
– Você não vai ficar livre, Katherine. – Patrick falou – Vai ter retorno.
Coloquei minhas mãos em meu rosto e ouvi o disparo de um tiro. Elliot havia atirado em Patrick. Retornei meu olhar para Elliot, que estava caminhando para minha direção. Senti o sangue escorrendo por meu rosto e voltei a mão até a ferida.
–  Você estava destinada a morrer. – Ele levantou uma arma – E eu facilitarei isso para John.
Ele apontou a arma para mim, mas a mulher que eu havia matado se levantou em um impulso, mas Elliot virou para ela e atirou.
– Elliot, o que você fez? – Perguntei ainda olhando para a mulher morta no chão, mas não era Elliot que estava lá.
Eu arregalei os olhos ao olhar para o lugar onde Elliot estava e percebi que estava olhando para mim mesma. A blusa social e a calça também social, meus cabelos acobreados… E a arma na mão direita.
– É difícil olhar para si mesma quando se é uma assassina, Katherine? – Ela falou (ou eu falei, é complicado) – Vai ter que lidar com isso.
Ela/eu olhou para mim enquanto arrumava a arma e senti algo em meu bolso. 
Uma faca. 
Quando ela/eu preparou, mirou a arma em minha testa. Com uma mão eu estava firmando para evitar que meu rosto ficasse cheio de sangue, então peguei a faca em meu bolso. Antes de perceber o disparo, joguei a faca derrubando… Eu mesma, que atirou no teto. A faca havia acertado seu lado direito do peito e eu senti uma dor forte na mesma região, o que me fez cair no chão logo em seguida… Como se eu tivesse sido golpeada aquela hora.
Acordei em um impulso, olhando para onde eu estava. Um carro em movimento, com Elliot ao meu lado. Coloquei a mão direita onde foi havia sangue, mas não estava sangrando mais.
– Achei que você não fosse mais acordar. – Ele falou – Eu curei o seu machucado enquanto você estava dormindo.
– Você me sedou! – Falei – Como você me sedou? Eu sei, com o ar, mas o motivo, por quê?
– Seria mais fácil curar o seu machucado com você parada do que gritando de dor e falando “ai Elliot, para com isso”. – Ele falou fazendo uma voz fina.
Ok, ponto para ele. Mas não iria ficar assim.
– Eu não falo dessa forma.
– Olha, você está indo para um centro de treinamento muito diferente de qualquer academia. – Ele explicou e eu fixei meus olhos em seu rosto – Existem pessoas muito diferentes umas das outras lá.
– Como…
– Sarah controla a água, eu a resgatei após a garota tentar suicídio por causa de John. – Ele explicou e apertou ainda mais o volante, o que me fez pensar que ele tinha problemas com o fato de uma pessoa retirar a própria vida ou o fato de ver alguém morrer – Anelise é um doce, mas não a irrite, pois ela vai te perturbar quando fica invisível. Lucas é o primeiro mutante que Ana resgatou, digamos que é meu amigo de infância. Ele é uma pessoa bondosa, cujo autocontrole me surpreende. Teodoro é um dos mais recentes, porém tem uma mira muito precisa, assim como a sua. Seu poder é virar uma pedra.
– Isso é sério? – Dei uma risada – Tipo o “Coisa”, do Quarteto Fantástico?
Ele me encarou com a expressão séria e eu parei de rir, concentrando-me na estrada. 
– Há também alguns mutantes que estão em casos especiais. Tem o Mateus, que consegue provocar terremotos. Carmen, que consegue controlar a neve. A Fernanda é a nossa mais nova de idade, seus pais tinham poderes também, mas morreram ficando com John. Ela consegue ler e controlar emoções, então não deixe aqueles pequenos olhos verdes te enganarem.
– Ela é travessa?
– Na verdade, não. – Ele sorriu – Ela nunca teve contato com os pais, Ana a criou como filha. E como Ana é minha mãe, eu acabei virando o irmão dela.
Chegamos a uma floresta densa, seguindo uma trilha de barro.
– Se seguirmos essa trilha, encontramos o prédio. – Ele falou – Não é algo muito complicado.
– Por que o prédio fica longe do resto da cidade?
– Para que não nos encontrem. John e seu pessoal acham que vivemos nas redondezas da cidade, mas não suspeitam nada quanto o interior da cidade nem quanto à floresta. 
Abri minha boca, demonstrando surpresa com aquilo.
– Mas eles não viviam no prédio? – Perguntei.
– Não. – Ele respondeu – Nós vivíamos na cidade. Tanto que você vai reparar que o prédio é mais antigo que a cidade, pois era um antigo hotel fazenda. Alguns mutantes apenas ajudaram Ana e Augusto, eu tinha apenas cinco anos e um poder, que era a força. Lembro-me de carregar sacos imensos de cimento sem sentir nada, por causa da força.
Havíamos chegado a um prédio. Era alto, com aproximadamente seis andares, tinha a aparência de residencial exceto pela placa “Hotel Fazenda” logo acima, as janelas estavam perfeitamente limpas e a estrutura parecia bem firme.
Assim que ele estacionou o carro na garagem, eu saí e caminhei para o porta-malas, quando ouvi alguns barulhos de passos.
– Elliot, eu vou te matar. – Uma garota se aproximou. Ela tinha olhos castanhos, pele bronzeada e cabelos castanhos cacheados que iam até a cintura, destacando seu top e sua legging comprida – Como assim você sai e vem com uma namorada?
– Se ela fosse minha namorada, ela não estaria aqui Sarah. – Elliot falou – Ela é filha de John e Martha.
– Desculpo te informar – Sarah olhou para mim – Mas seu pai é um filho da puta.
Sorri sem graça. Era como receber uma carta de “Bem vinda ao lugar onde todos odeiam o seu pai e, muito provavelmente, querem te matar”.
– Meu nome é Katherine. – Falei e ela ficou surpresa – O que foi?
– Você não está morta.
Obrigada Sarah, você é de uma motivação sem tamanho.
– Ela não desenvolveu poder nenhum, Sarah. – Elliot explicou – Viveu como uma humana desde então. E Martha não comentou nada com ela, se passou por humana também.
Sarah mordeu o lábio e me olhou.
– Provavelmente ela vai ter os dois poderes herdados, o fogo e mudar a pele para qualquer metal, mas será que vai desenvolver um terceiro, assim como você Elliot?
– Não sei. – Ele respondeu – É por isso que ela está aqui. Sarah, aproveitando que você não está fazendo nada, que tal dar uma forcinha com as malas?
Sarah pegou uma mala, eu peguei outra e Elliot pegou as duas mais pesadas, fazendo com que eu estranhasse.
– É como pegar duas galinhas. – Ele falou.
– Ele é mais forte. – Sarah falou – Ele é tipo o super homem, mas com a cueca para dentro da calça.
– Pelo visto sua noite ontem foi terrível. – Ele comentou – O que aconteceu? Sua Barbie Malibu criou vida e fugiu?
– Quer morrer afogado moleque? – Ela falou e ele começou a rir – Então cala a boca. Só porque você tem quase trinta e eu tenho quinze, você não precisa mostrar a face da terceira idade.
Entrei no prédio, que era maior do que eu imaginei. O hall era imenso com paredes cinza, levemente prateadas, havia uma escada no centro e elevadores no canto, além de sofás pretos em volta de uma mesa de centro.
– Não quero incomodar, eu posso ficar na sala mesmo. – Falei – Não precisam se preocupar.
– Pedi para Ana preparar um quarto para você. – Elliot falou, deixando as duas malas no chão – Vou ver se ela arrumou. Sarah, você pode cuidar dela enquanto eu confiro as coisas com a Ana?
– Claro, eu faço tudo mesmo! – Ela sentou-se no sofá de três lugares e Elliot entrou no prédio – Senta aqui, me conta como foi sua vida.
Sentei-me do lado dela e contei sobre minha faculdade, ter matado Patrick, a morte da mulher, a viagem e sobre Elliot ter sido duro comigo após tudo. Não contei sobre a morte da minha mãe, uma vez que não sabia se ela realmente estava morta. E pensar nisso não me fazia bem nesse exato momento.
– Ele tem problemas. – Ela falou – E você levou uma vida perfeitamente normal… Isso é incrível.
– Como foi sua vida? – Perguntei.
– Difícil – Ela falou – Eu era uma adolescente normal, aí minha mãe falou que, para me proteger, eu teria que ir com John. Eu fui e ele fez experimentos comigo, o poder que foi desenvolvido era controlar a água. Foi incrível e eu segui John até o fim, pois ele me prometeu que encontraria uma pessoa que realmente me amasse e, assim que essa pessoa fosse encontrada, ele iria me liberar. Até o dia que ele invadiu meu quarto. – Percebi que Sarah mordeu seu lábio inferior e levou a mão esquerda para a região de seus olhos, limpando algo depositado abaixo da região dos olhos – Lembro-me disso como se fosse ontem, foi terrível. Ele tentou me tocar, mas fui mais rápida e inundei o quarto. Como eu estava perto da janela, não pensei duas vezes e pulei. Não sabia se ia chegar até o chão com vida ou se eu ia morrer logo ali. Na verdade, não me importava em morrer naquele momento, eu estava me sentindo tão usada que morrer seria uma opção válida, até que percebi que não caí de cara no chão, Elliot me salvou. Ele controla os ventos, então amorteceu a minha queda e me trouxe até aqui, onde foi como um irmão para mim, nunca conseguirei agradecê-lo por ter salvado minha vida, mostrar que eu mereço uma segunda chance e que a vida merece ser vivida.
Eu dei um abraço nela. Não havia mais nada para fazer, apenas abraça-la, pois eu já me senti exatamente assim. Antes de namorar Patrick, achava que ninguém ia me querer e que todos os caras queriam estar comigo para contar vantagem ou para garantir uma noite de sexo no final de semana. Soltei-a quando me lembrei das palavras de Patrick, dizendo que eu não tinha nenhuma utilidade e que servi como uma distração.
– O que foi? – Ela perguntou.
– Nad…
Ouvi um barulho de vidro sendo quebrado e olhei para as escadas, a origem do som. Havia uma mulher loira e alta, com olhos azuis, usando um vestido azul marinho que encaixava perfeitamente em seu físico. Seus sapatos pareciam ter acabado de sair da loja, pois estavam perfeitamente arrumados. Algumas flores estavam no chão, fazendo-me concluir que um vaso havia sido quebrado.
– Ana, o que foi? – Sarah perguntou.
– Ela é igual à Martha. – A mulher falou.
– Martha Blaut é a mãe dela, John o pai… – Elliot saiu do nada, comentando com Ana – E, como você viu, ela é igual à mãe. – Ele desceu as escadas, pegando as duas malas com a maior facilidade do mundo – Agora, vamos até o quarto dela.
Ana ficou me encarando, como se estivesse tentando dizer alguma coisa, mas permaneceu em silêncio.
– Vou te ajudar. – Sarah pegou a mala mais leve – Vamos.
A escada do hall era curta e, após andar um pouco mais, entramos no elevador os quatro – eu, Sarah, Elliot e Ana. Não trocamos uma palavra sequer, deixando que o silêncio fosse substituído apenas pela música que tocava. Chegamos ao quinto andar e Ana foi a primeira a sair, seguida por Elliot, Sarah e eu. 
O corredor era bem iluminado, com tons de cinza e prateado, que remetiam um ar mais futurístico. Andava reparando nas paredes, que continham portas de madeira e estranhei.
– Esse prédio era um hotel de luxo. – Ana falou – Depois de John ter destruído a cidade, ficamos com esse prédio. Ele contém tudo o que precisamos, desde uma academia até um parquinho para as crianças.
Olhei para a porta onde paramos. Quarto 516, muito provavelmente onde seria minha próxima casa. Ana destrancou a porta e deu passagem para que todas as malas fossem colocadas no chão, uma vez que depois eu iria arrumar tudo.
O quarto não era prateado como o resto dos cômodos. Suas paredes eram de um tom de pêssego com o piso de madeira, a decoração era algo que se assemelhava ao country, porém não ficou do meu agrado. A cama ficava entre dois criados mudos entre a estante que continha uma televisão e várias decorações pequenas. O armário de roupas era embutido de um tom mais claro de madeira – a cor era marfim, se não me engano – ficava entre o banheiro e a porta de saída. 
– Se precisar de alguma coisa, – Sarah falou, deixando a mala que pegou em cima da cama – não me chame. Brincadeira, meu quarto é o 513.
Sarah saiu e Elliot foi atrás dela, deixando-me sozinha com Ana, que me encarava. Por céus, até onde eu deveria me sentir segura tem gente querendo me matar?
– Obrigada por me aceitar aqui, senhora. – Ela continuava me encarando – Se quiser alguma ajuda…
– Por favor, pare. – Ela falou – Você pode ficar aqui, mas não repita o mesmo erro de sua mãe, a ambiciosa Martha Blaut, que deixou Augusto sozinho até a saudade ter matado-o. Se você fizer o mesmo com o meu filho, irei até onde você está e arrancarei seu coração com as mãos.
Ana era uma pessoa simpática, dando uma incrível primeira impressão. Fiquei parada olhando para ela até se retirar.
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Juki

Graduanda em letras e canceriana de 22 anos na identidade, mesmo com cara de 17. Apaixonada por games, música e literatura, viciada em animes e mangás e louca por chocolate.

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