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30 de janeiro de 2015
Combinei com Walter de nos encontrarmos na porta da boate e assim foi feito. Elliot estava da mesma forma que antes, apenas eu havia mudado minhas roupas sociais para um vestido azul e mais curto. Walter era um homem alto, com cabelos pretos e curtos, olhos castanhos. Suas roupas tinham sempre estilo, o que me fazia pensar em ser professora, assim como ele.
– Olá. – Sorri e o abracei – Tudo bem.
– Tudo sim, e com você? – Ele sorriu e olhou para ele – Ah, você está com um cara novo?
Walter e eu nunca fomos namorados, apenas melhores amigos. Afinal, Walter tinha um namorado e vivia saindo para festas comigo quando brigava com ele.
– Ele não é meu namorado… – Pensei em uma desculpa – Ele é Elliot, filho de um conhecido da minha mãe.
– Sou filho do ex-namorado de Martha, mas não sou irmão ou namorado de Katherine. – Ele falou e eu fiquei com um pouco de vergonha – Estou aqui apenas para levá-la em segurança para casa.
Walter abaixou e falou mais baixo, querendo que apenas eu escutasse.
– Onde você arrumou um desses? Não vendem homens bonitos no supermercado.
Dei uma risada baixa.
– Se você quiser levá-lo, sinta-se a vontade. – Comentei – Mais um minuto com Elliot e eu pulo do alto do meu prédio.
Elliot tossiu e eu ri.
– Vamos? – Perguntei – Ah e o Elliot nunca foi a uma festa.
– Nunca? – Walter olhou para ele, que negou com a cabeça – Então você não está com a companhia certa.
Entramos e uma música eletrônica explodiu em meus ouvidos, mas eu não estava ligando e fui para a pista de dança, deixando Elliot e Walter sozinhos. Pensei em começar a dançar, mas ainda era cedo e resolvi começar a beber algumas doses de destilados.
Cheguei à mesa do bar que era de madeira – mogno, eu suponho – e me sentei na cadeira acolchoada e o barman virou. Tinha longos cabelos em um tom intenso de vermelho, pele negra e traços delicados.
– Gim puro, por favor. – Pedi e ele sorriu, preparando a minha bebida e entregando-me logo em seguida – Obrigada.
Em alguns instantes, um homem sentou-se ao meu lado e eu sorri enquanto bebia uma dose de vodca com maçã. Ele tinha estatura alta, aproximadamente vinte e cinco anos, cabelos cor castanho escuro, um pouco mais claros que preto, usava uma blusa listrada cujas cores revezavam entre cinza e azul. Sua calça jeans estava bem desbotada.
– Você vem sempre aqui? – Ele perguntou e eu sorri.
– Com tantas cantadas no mundo você me chama com “você vem sempre aqui”? – Perguntei, rindo – Vou te dar outra chance, vai lá.
Encarei-o, que começou a rir de forma suave, fechando seus olhos castanhos.
– Gostei da sua atitude. – Ele falou – Meu nome é Pedro.
– Katherine.
– E eu sou Elliot. – Ouvi uma voz atrás de mim.
Novamente desejei que meu poder fosse torturar as pessoas mentalmente. Ou fazê-las ir para longe.
– Desculpe-me, não vi que você estava acompanhada. – Pedro sorriu e levantou-se, saindo com passos mais vagarosos, porém precisos.
– Nem eu. – Assim que ele saiu, encarei Elliot – Qual é o seu problema?
– Nenhum, pergunte isso para ele. “Você vem sempre aqui?” não é uma cantada que se usa sem querer apanhar.
– E interromper uma cantada entre dois solteiros não é uma coisa que se faça sem querer apanhar. Mais uma vez, qual é o seu problema?
– Ele estava parecendo que ia te devorar com os olhos, eu estava quase sugerindo que ele procurasse um quarto. – Elliot riu – E eu não ia deixar que isso acontecesse ainda mais que seus poderes podem aparecer a qualquer momento.
– Mas não apareceram. – Sorri – E agora ele se foi.
– Você devia me agradecer por isso.
Levantei os braços e virei-me para o barman.
– Outra dose.– Falei, olhando para a decoração – Na verdade, eu vou querer um copo cheio de gim, não aquele pouquinho que você me deu.
– Vai aguentar? – Ele perguntou – É uma bebida muito forte para um copo cheio.
Vi o corpo de Elliot se enrijecer e seu olhar cair sobre meu corpo, como se eu não aguentasse uma bebida mais forte do que gim. Isso poderia até ser verdade, mas eu estava pronta para encarar novos desafios e mostrar que eu não sou uma mocinha indefesa.
– Se quiser colocar algo mais pesado junto, eu animo. – Falei – Eu aguento muito mais do que você imagina.
Dei uma piscada e Elliot me encarou.
– Você é louca.
– Eu sou uma pessoa perfeitamente normal. – Falei – Cadê Walter?
– Estava na pista de dança, ele parece ser muito bom em dança. – Elliot sorriu e minha bebida chegou – Duvido que você vire.
– Então você não me conhece.
Encarei a bebida e levei o copo em minha boca. Dei o primeiro gole e senti aquele gosto de amargo descendo em minha garganta e quase larguei o copo, só não o fiz pois Elliot duvidara de mim. Eu era forte, eu iria conseguir nem que eu desmaiasse depois. Continuei a beber o drink preparado e quando senti que não havia mais nada eu larguei o copo e encarei Elliot.
– Poderia beber mais quatro desse. – Falei, sentindo um pouco do gosto amargo do álcool no final – Você tem Montilla aí, moço?
O barman me encarou perplexo e eu sorri.
– Vai com calma Katherine. – Elliot falou.
– Cala a boca Elliot!
– Vocês estão juntos? – O barman perguntou e eu comecei a rir e Elliot deve ter feito algum gesto confirmando – Meu filho, hoje a noite vai prometer.
– Só se for uma boa soneca. – Falei – Eu quero rum agora moço.
Enquanto ele preparava, Elliot me encarou com seus olhos azuis.
– O que é isso?
– Uma pessoa pedindo bebida.
– Qual o motivo para você beber?
– Eu quero esquecer esse dia e acabar na cama com um cara bonito que não quer me levar para a cidade perdida de Atlântida.
– Você bebe para fugir da realidade. – Ele falou – Mas o que há na realidade que você tanto odeia?
O barman me entregou a bebida e pensei em uma resposta enquanto girava o copo e observava o líquido mexendo.
– Tudo. – Falei, lembrando-me das palavras de Patrick – Obrigações, coisas para fazer, crises emocionais, falta de carinho…
Elliot me encarou. Ele sabia que Patrick era o meu ex, mas após eu dizer aquilo, não tenho tanta certeza do que ele pensou.
– Então por que você estava com ele?
– Eu não sei! – Falei sentindo os meus olhos enchendo de água – Eu acho que tenho medo de ficar sozinha. De não ter ninguém para confiar no fim e acabar em um apartamento sozinha, sem comemorar nenhuma data em especial como aniversário dos filhos ou algo assim. – Bebi um pouco do rum – Eu sou uma pessoa totalmente romântica e geralmente pessoas assim não atraem ninguém.
Bebi o resto do rum em meu copo e coloquei minha cabeça na mesa, começando a chorar. Meu coração já devia estar batendo para o meu corpo praticamente a mesma dosagem de álcool e sangue.
– Eu vou morrer sozinha e deixarei minha herança para os meus futuros gatos! – Falei.
Elliot me encarou sem saber o que fazer. Eu já estava em meu estado “bêbada triste” e estava com total consciência disto.
Levantei minha cabeça, joguei meus cabelos ruivos para trás e olhei para Elliot, tentando sorrir um pouco ao fixar meus olhos verdes em seus olhos azuis.
– Estou com fome. – Falei.
– Mas vo…
– Não ligo, estou com fome! Pede comida para mim?
Já estava na fase bêbada criança. Eu tinha duas opções: parar por aqui ou beber mais um pouco só para ter certeza que dormirei muito bem para mim. Optei pela segunda opção e procurei alguma bebida perdida na mesa enquanto Elliot pediu um bolinho de bacalhau para mim.
– Você está bem Katherine? – Ele perguntou – Você não me parece bem. Eu vou te levar para casa.
– Eu estou ótima!
Mas Elliot já estava em pé e pegou em minha mão, me levantando também.
– Eu quero ficar. – Fiz bico – Por favor…
– Não, vamos para casa.
Ele ficou procurando por alguém na pista de dança e só então me lembrei de Walter.
– Fique aqui. – Ele instruiu e eu ri – Vou procurar o seu amigo.
– Não, eu vou sair correndo por aí.
Ele foi procurar Walter e eu fiquei parada na pista de dança. Então olhei para o meu corpo no meio da pista e fiquei olhando ao meu redor as pessoas dançando e comecei a dançar também, conforme o ritmo da música eletrônica que tocava. Ainda bem que estou bêbada!
– Katherine! – Ouvi a voz de Elliot atrás de mim e sorri para ele.
– Olá! – Falei, dando uma risada – O que foi?
Vi que Walter estava ao seu lado com uma cara confusa e sorri com aquilo. Elliot pegou minha mão e puxou-me para perto de si, firmando meu pequeno corpo no seu com suas mãos em minha cintura e foi me carregando até meu carro e me colocou no banco de carona e colocando o meu cinto.
– Eu consigo colocar o cinto! – Protestei – Não sou uma criança.
– Katherine… – Walter falou – Você está bêbada. Eu sei que você consegue ter noção de tudo mesmo bêbada e que muitas vezes é mais esperta com bebida do que sóbria…
– Vai ficar do lado dele agora?
– Não, é que… – Ele pensou – Você bebeu duas doses de gim puro e está bem, você é minha heroína.
– Eu só quero beber nesse open bar e esquecer a vida, esquecer o dia. – Choraminguei – A noite é uma criança, não deve ser nem duas horas da manhã ainda.
Ouvi uma batida no banco de trás da porta sendo fechada e Elliot entrou no banco do motorista e me encarou. Respondi com uma risada.
– Chaves. – Ele falou – Vou te levar para casa.
– Olhe para o outro lado. – Falei, lembrando-me onde havia colocado a chave do carro.
– Você vai fugir, eu não vou olhar.
– Eu vou pegar a chave, mas ela não está em um lugar muito criativo nesse momento.
Elliot me encarou e eu coloquei a mão em meu decote, puxando as chaves do meu carro. Ele olhou para as chaves e para mim logo em seguida, ainda perplexo com a minha reação.
– Você pediu. – Falei – E eu ainda avisei.
– Obrigado. – Ele falou, pegando as chaves e ligando o meu carro – Walter, onde você mora?
– Pode seguir para a casa da Katherine no caminho da Avenida Amazonas. – Walter falou – Se você parar em algum lugar que eu possa pegar ônibus para Contagem me avise, pois eu moro lá. 
– Tudo bem.
– E Katherine. – Walter falou – Próxima vez resolva pegar um cara que goste de sair e que fique em um open bar e open food até de madrugada. Eu nem cheguei a beber e, pelo que eu estou vendo, você está bem.
– Pode deixar.
Minutos depois, ouvi roncos do banco de trás e olhei para Walter, que dormia profundamente.
– Walter… – Falei e nada. Tentei balançar sua perna para acordá-lo, mas não obtive sucesso.
– Ele dormiu? – Elliot perguntou.
– Sim. E pelo visto está em sono profundo.
– Olha Katherine, sobre o dia…
– Eu estou com sangue no álcool. – Analisei os fatos – Tem certeza que quer conversar sobre o dia?
– Sim, pois não sei se teremos outro momento.
– Amanhã não me recordarei de nada.
– Melhor ainda.
Rimos e ele olhou para mim.
Elliot era um cara bonito, eu não podia negar. Seus cabelos loiros eram curtos e ele tinha uma barba mal feita em seu queixo. Seus olhos eram de uma cor azul profundo e a forma com que essas características combinavam em seu rosto marcante ficava perfeita nele e combinavam com a sua personalidade forte, marcante e teimosa.
– Se você não quiser ir… – Ele falou – Não precisa ir. Mas você é a última esperança dos mutantes. O sangue de John está em você, apesar de você ser uma irmã gêmea da Martha Blaut.
– Sou a única esperança?
Ele confirmou com a cabeça.
Não gostava de assumir responsabilidades que eu saberia que não ia conseguir assumir, mas também não gostava de deixar as pessoas na mão. E se eu realmente sou filha do mutante que quer dominar o mundo e só eu consigo pará-lo, então era necessário me preparar para a luta.
– Então terei que deixar minha família, minha vida e meus amigos para trás e assumir uma nova vida.
– Sim, mas é para salvá-los. Não só nós, mas a humanidade. John sempre foi ambicioso e fã de quadrinhos. Ele deve querer dominar o mundo ou algo assim.
Olhei para a janela e observei a noite. Caso eu aceitasse seguir em frente com Elliot, seria a minha última noite em Belo Horizonte, minha última noite como uma pessoa normal. Amanhã eu iria ver como eram as estrelas em Cruzeiro do Sul, como uma mutante.
Encostei-me a janela fechada do meu lado e fechei os meus olhos suavemente, caindo no sono logo em seguida.
Quem foi o imbecil que deixou a cortina aberta durante a noite? A luz queima, ainda mais quando é sábado e você bebeu um pouco além da conta – ainda mais que você não aguente beber uma cerveja sem começar a ficar alegre – na noite passada.
A noite passada… Eu me lembro vagamente daquilo. A única lembrança nítida que eu tenho era a de um cara encarando minhas coxas e meus seios sobre o pano de meu vestido azul… Conferi a roupa que eu estava. Não era o vestido.
O que eu fiz?
Ouvi a porta abrindo com um homem loiro e olhos azuis trazendo o meu café da manhã. Até achei que fosse o homem dos meus sonhos, mas era só Elliot.
– Você trocou a minha roupa?
 – Sim. – Ele falou com calma – Você dormiu no seu carro e eu te carreguei até o seu apartamento e te deitei na cama.
Eu estava prestando atenção nas palavras dele, mas minha cabeça ainda doía um pouco.
– Você parecia desconfortável então eu troquei sua roupa por essa camisola.
Analisei minha roupa. Uma camisola larga com um panda estampado em minha barriga. Definitivamente algo “muito fofo” para a ocasião.
– Obrigada. – Sorri – E sobre ontem…
Elliot fixou seus olhos nos meus, na espera de alguma resposta imediata e eu olhei para ele. Se eu aceitasse, saberia que não poderia recuar. Mas minha mãe ainda poderia me ajudar a ficar aqui.
– Eu aceito. – Falei e ele sorriu – Eu aceito ir para Cruzeiro do Sul, treinar e seguir com você o caminho que eu tenho que seguir e tudo mais. Mesmo não sabendo qual é.
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Juki

Graduanda em letras e canceriana de 22 anos na identidade, mesmo com cara de 17. Apaixonada por games, música e literatura, viciada em animes e mangás e louca por chocolate.

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