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23 de janeiro de 2015
Assim que abri a porta do meu apartamento, Elliot ficou impressionado – só resta-me saber se foi por causa do tamanho do lugar ou da organização que eu não tenho. As paredes eram brancas, com uma janela fechada no fundo de frente para a porta, com duas cortinas também brancas abertas. Como eram quase seis horas da tarde, era possível ver o por do Sol do meu apartamento e a vista do sol se pondo entre as montanhas era linda.
Meus móveis também eram brancos e, como normalmente só a minha mãe me visita, havia apenas um sofá de três lugares que ficava de frente à estante repleta de porta retratos, meu pequeno Bonsai e com minha televisão e ao lado da janela. Como o apartamento era muito pequeno, havia a cozinha americana, cuja estante era de madeira e os demais objetos – microondas, a geladeira e o fogão –eram da cor prata – ou cinza, há uma tênue diferença entre essas cores e eu não reconheço.
Joguei minha bolsa no chão e sorri para Elliot, que ainda estava confuso. Sentei-me no sofá e olhei para ele.
– Sinta-se a vontade para me contar tudo o que aconteceu comigo, com meu pai e com minha mãe.
– Não chame aquele sujeito de pai. – Elliot falou e sentou-se a minha frente – Ele não merece isso.
Os olhos de Elliot estavam enfurecidos, mas mamãe nunca havia nem citado o nome de Elliot para mim e ele pareceu-me frio comentando sobre minha família no carro, portanto deduzi que John fez algo que afetou Elliot diretamente.
– Alguns anos atrás, um pesquisador chamado Augusto Oliveira aprimorou suas técnicas em genética. Começou fazendo simples mutações em alimentos, coisas normais e que muitas pessoas vêem frequentemente. Mas um dia o seu cachorro de estimação de quase 16 anos bebeu uma dosagem que seria ingerida e o animal começou a ficar mais forte e resistente, tanto que, quando o animal completou 17 anos ele parecia mais jovem e mais forte a cada dia que passava.
– Mas o que um cachorro tem relacionado com meus pais?
– Espere que eu vou chegar nessa parte.
– Ok.
– Com o sucesso da experiência, ele repetiu a dosagem e testou em si mesmo. Muitos pensariam que foi algo suicida, mas foi um sucesso. Augusto ficou mais forte, como um desses super-heróis que fazem as meninas gritarem nos cinemas. Ele havia contado para sua mãe, que era a namorada dele no momento sobre o sucesso da experiência e ela demonstrou apoio, mas que não queria se transformar geneticamente, tudo o que ela queria era ter uma vida tranquila, mas Augusto ficou pressionando-a a cada dia que passava até que algum dia ele desistiu e acreditou que ela estava certa, que ambos deveriam viver tranquilamente. Então propôs casamento e ela aceitou.
– Quem é Augusto?
– Meu pai. – Ele falou – Ele tinha um caso com sua mãe, mas não deu muito certo. Para de me interromper ou eu desisto de te contar as coisas.
– Tudo bem, não precisa partir para a violência.
Ele deu um sorriso e continuou a contar a história.
– Depois do noivado, Martha ficou curiosa para saber como Augusto se sentiu ao ter poderes e acabou cedendo, pedindo para Augusto fazer um experimento com ela. Para a surpresa de todos, os poderes variavam. Ele conseguiu a força e Martha conseguiu o poder do fogo. Sabendo dessas experiências, um colega da faculdade de Augusto, um inglês chamado John Smith foi visitá-lo e pediu para injetar uma dosagem nele. O seu poder é transformar a derme na substância de qualquer objeto que ele toca ou pensa.
– Então ele pode ser indestrutível.
– Ele só pode ser morto em sua forma humana. – Ele explicou – Augusto deixou uma cicatriz em seu rosto quando ele estava na forma humana, dessa forma que descobrimos como matá-lo.
– Continue.
– Depois de um tempo, mais pessoas se interessaram e eles foram para a cidade chamada Cruzeiro do Sul, onde fizeram mais experimentos com os interessados e acabaram por ficar na cidade.
– Mas Cruzeiro do Sul não foi desolada depois de pequenos testes de experiências nucleares?
– Isso foi o que a polícia informou para a mídia, para que a cidade ficasse totalmente afastada. Depois da chegada de John, sua mãe começou a resistir, não falava muito, não comentava com ninguém sobre nada e terminou o noivado, correndo para uma cidade muito longe. Meu pai ficou noites chorando, até que Ana, uma mutante de lá que tinha o poder de controlar o vento, ajudou meu pai, fazendo com que ele conseguisse melhorar de humor. Nove meses depois, eu nasci. Meu pai sempre tentou fazer com que eu não me arrependesse. Mas a realidade dele era diferente. Depois de dois anos, sua mãe retornou para a cidade, arrependida. Tentou se desculpar com meu pai, mas não deu muito certo. Então sua mãe teve uma noite com John e acabou engravidando de você. Quando ela falou que estava grávida, John fez de tudo para matar você e Martha, porém ela se escondeu em Belo Horizonte e não contou para ninguém. John achou que vocês ainda estavam na cidade e, com a ajuda de outros mutantes, destruíram a cidade atrás de vocês e não encontraram.
– Isso é terrível. – Falei – E agora eu vou morrer por causa do John, suponho.
– Você até que é esperta.
– Pena que não vou com você. – Falei enquanto levantava do sofá – Vou continuar em Belo Horizonte, quieta no meu canto.
– Você vai morrer se continuar aqui.
– Não ligo. – A campainha tocou e eu fui atender – Um dia vamos todos morrer mesmo.
Abri a porta e uma mulher alta, com longos cabelos pretos encaracolados, trajando um vestido decotado e botas cano alto estava parada de frente a minha porta e eu estranhei, uma vez que não estava preparada para receber visitas em meu apartamento às seis horas da tarde.
– Katherine Blaut. – Ela falou – Não acredito que finalmente te conheci.
Os olhos dela, até no momento verdes, mudaram para um tom de vermelho e seus dentes alongaram.
– O que é você? – Perguntei afastando-me dela enquanto Elliot se aproximava dela soltando faíscas em suas mãos.
– Sou como você. – Ela respondeu – Mas eu viverei até o fim do dia.
Será que todos nessa cidade querem me matar? Eu nunca fiz nada tão terrível para aparecer uma pessoa nova a cada esquina – sem exageros – querendo a minha morte.
Em um impulso, peguei o abajur que deixo no criado mudo ao lado da entrada de minha casa e quebrei na cabeça da mulher antes de Elliot me empurrar para trás e colocar a mão no pescoço dela, fazendo-a gritar de dor.
– Eletricidade. – Ele explicou – Corra, vá se proteger.
Segui o conselho dele e fui para a cozinha. Conferi em minha gaveta de talheres e peguei a maior faca que eu encontrei, para me defender e retornei até a sala, onde a mulher estava enforcando Elliot de frente à janela.
Mirei a faca nas costas da mulher, do lado esquerdo por causa do coração. Não pensei duas vezes e joguei a faca, acertando em cheio – vou agradecer a minha mãe depois para me incentivar a ir aos jogos de mira – fazendo com que a mulher soltasse Elliot e caísse. Assim que ela caiu, corri e retirei a faca de seu corpo, enquanto Elliot colocou sua mão no pescoço dela e pareceu eletrizá-la.
Segundos depois, o corpo daquela mulher caiu em meu tapete laranja, sem vida e com o sangue escorrendo. Olhei para Elliot preocupada e ele conferiu a pulsação dela e olhou para mim.
– Morta.
Suspirei e olhei para ele novamente.
Eu havia matado duas pessoas em apenas um dia e estava acabada por dentro. Não sabia como prosseguir, como eu havia feito isso ou por que eu salvei Elliot. Minhas mãos estavam trêmulas e muito provavelmente eu precisaria de um calmante para sobreviver à noite.
– Tudo bem, Katherine? – Ele segurou minha mão. Acho que estava com medo de que eu surtasse como surtei com Patrick.
– Sim. – Falei, tentando me controlar – Vou preparar algo para nós dois comermos. Mas… Teria como você levar o corpo dela? Comer olhando para um cadáver, não é muito agradável.
Ele deu uma risada e pegou o corpo da mulher, levando-o para fora. Enquanto isso, eu coloquei a faca na pia e liguei a torneira, para que limpasse o sangue da mulher.
Matei duas pessoas a sangue frio. Não pensei em como a família reagiria, se as pessoas haviam deixado parentes para trás ou se eles estavam fazendo isso para proteger alguém. Coloquei a mão em minha testa e suspirei. Eu não iria chorar, não agora, não por isso.
Olhei na geladeira se havia alguma coisa para comer, mas a resposta era negativa, já que amanhã era o dia das compras. Chequei nos armários e encontrei dois pacotes de miojo de galinha caipira e coloquei-os próximo a pia. Coloquei água em uma panela e deixei a água esquentando no fogo máximo, para esquentar mais rápido.
Ouvi a porta abrindo e peguei a faca que estava na pia por impulso. Vire-me para ver quem era e encarei Elliot. Larguei a faca.
– Estou fazendo miojo. – Comentei – Você gosta?
– Nunca comi, na verdade. – Ele falou – Viu que não era mentira? Como Patrick e essa mulher, muitos outros vão vir atrás de você. E sua defesa não pode ser uma faca e um abajur, você tem que treinar.
– Eu nunca gostei de esportes.
– Mas arremessou uma faca perfeitamente.
– A distância era curta e eu treinava em parques de diversão. Mas eu tinha que acertar uma bola de meia em latas, não uma faca no coração de uma pessoa.
– E você fez isso com maestria. – Ele sorriu e eu abri os pacotes – Quer ajuda?
– Você conduz eletricidade?
– Não, eu apenas controlo. Além disso, eu controlo o vento, como minha mãe Ana e tenho força fora do comum.
– Então você é algo como o super homem?
– Não, o super homem vive em Gotham City e usa cueca por cima da calça. – Ele riu – Eu vivo em Cruzeiro do Sul e uso cueca para dentro da calça.
– Nossa! Isso faz muita diferença.
Coloquei o conteúdo dos dois miojos dentro da panela e peguei um garfo com a ponta de madeira e comecei a mexer até que os fios do macarrão se soltassem.
– Esse tal miojo é bom? – Ele perguntou, olhando para mim com certa esperança.
– É a invenção dos deuses para quem tem preguiça de pedir comida ou quer comer algo de rápido preparo. – Brinquei – Você vai gostar. E o sabor de galinha caipira é o melhor que existe.
Percebi que o macarrão estava solto e a água borbulhando quando despejei os pacotes de caldo e misturei. Quando o pó se dissolveu totalmente, desliguei o fogo e peguei duas tigelas de plástico e dividi o conteúdo do miojo entre eles. Peguei uma colher e um pote aleatório e dei uma colherada.
Lembrei que havia tirado do fogo somente quando coloquei um pouco em minha boca e senti queimando. Cuspi de volta para o prato e encarei Elliot, que estava confuso. Coloquei minha língua para fora e abanei com a mão direita.
– Está bom, mas está quente. – Falei, ainda com a língua para fora – Se eu fosse você, esperava esfriar um pouco.
Abri a geladeira e peguei a coca cola, coloquei-a em um copo e bebi rapidamente, sentindo a minha língua agradecer pela coca gelada.
– Você ficou vermelha. – Ele observou.
– Eu fico vermelha muito fácil. – Respondi e bebi mais um gole – E eu odeio isso. Aceita um pouco de coca?
– Posso fazer um suco de laranja? É mais saudável e eu tenho que malhar mais assim que eu voltar para o prédio.
– Você fez nutrição ou o quê? – Disparei – Por favor, é coca cola com miojo. Um dia que você falhar com essa malhação sua não vai te matar.
– Pela cara que você fez ao comer o miojo eu não sei. – Eu o encarei e ele riu da minha cara – Ficou vermelha de novo. E você vai comigo para o prédio?
Eu não havia pensado naquilo. Na verdade, não queria pensar em sair da minha cidade. Mas, se mais gente virá atrás de mim, eu não poderei ficar sendo uma serial killer na sorte – pois tive sorte com Patrick e com a mulher que me visitou –, eu precisava de treino.
– Terei que consultar minha mãe amanhã. – Falei – Se quiser, pode dormir aqui, até porque os hotéis por aqui não são bons. Mas amanhã no primeiro horário eu vou visitar minha mãe e vamos passar essa história a limpo.
– Ainda duvida de mim, Katherine? – Ele perguntou – Eu te mostrei que tenho poderes, outra pessoa veio atrás de você e você ainda quer perguntar para a sua mãe?
– Não faço nada sem consultá-la. Mesmo que ela diga “vá” e eu fique, eu pergunto tudo para ela.
Meu celular apitou e eu havia me esquecido da existência dele em meu bolso. Olhei e vi que era uma mensagem no WhatsApp vinda do meu amigo Walter.

Walter: Kath, nós vamos sair hoje?

Walter realmente sabe como eu me sinto. Eu estava doida para sair, mas Elliot ficaria no meu pé. A menos que ele vá também.
– Ei! – Falei – Um amigo meu está me chamando para sair e, hm, vamos?
– Como assim “sair”? – Ele perguntou.
– Vocês nunca saíram lá no seu prédio? – Perguntei e ele negou com a cabeça – É muito bom, nós bebemos até cair e não lembramos como chegamos em casa. É divertido.
– Parece-me perigoso, ainda mais com gente atrás de você.
– Esqueça os problemas. – Sorri – Por hoje, faça como Timão e Pumba. Hakuna Matata, seus problemas você deve esquecer.
Aquela cena devia estar sendo ridícula, uma mulher de vinte e quatro anos cantando música de um filme da Disney, mas eu não me importava. Não estava querendo ir para a tal cidade e muito menos sair de Belo Horizonte, da minha zona de conforto. Mas, caso ele me arraste, tenho que ter pelo menos uma última ressaca.
– E aí? – Forcei – Você nem precisa beber, apenas ficar lá de olho em mim para eu não fazer nenhuma coisa de ruim, já que eu sou muito importante para você viva.
– Não para mim, mas para a humanidade.
– Por quê?
– Depois eu te conto. – Ele falou sério – Pode confirmar com o seu amigo.
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Juki

Graduanda em letras e canceriana de 22 anos na identidade, mesmo com cara de 17. Apaixonada por games, música e literatura, viciada em animes e mangás e louca por chocolate.

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