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23 de janeiro de 2015
Esperar nunca foi o meu forte. Odeio esperar, acho isso incômodo. Se as pessoas marcam um compromisso e você confirma, o mínimo que elas devem fazer é deixar tudo separado, então você simplesmente vai ao local e pega todos os documentos possíveis.
Mas minha faculdade não pensa assim, muito menos o Registro Escolar.
Estou sentada olhando para o corredor da minha antiga faculdade, observando os alunos andando para todos os lados. Algumas conversas me surpreendem, como “A festa do Mateus estava incrível, você poderia aparecer por lá” ou “Vou ao jogo de futebol, torcer pelo meu namorado”. Eu nunca fora esse tipo de aluna, sempre fiquei mais quieta, frequentei uma ou outra festa – fora a formatura – por ter sido convidada somente para elas. Não tinha um corpo muito “bom” para ser uma líder de torcida ou um carro de última geração para ser considerada uma pessoa mais rica. Era apenas eu mesma.
Por Deus, onde está essa mulher com meu histórico?
Antes de levantar, um homem pouco mais velho passou me encarando de uma forma diferente, já que a maioria dos alunos fingia não me ver e simplesmente me ignorava. Aparentava ter 25 anos, usava jeans e uma camisa preta que destacava seu corpo muito bem cuidado, além de destacar seus olhos azuis e cabelo loiro. Acompanhei-o com os olhos, apenas por curiosidade e ele virou a esquerda no final do corredor. Percebi barulhos oriundos da porta da coordenação, imaginando que era a mulher com o meu histórico e os outros documentos, mas comemorei cedo demais, porque quem abriu não foi a coordenadora do curso, e sim uma pessoa que eu estava evitando há anos – meu ex-namorado, Patrick Wellingthon. Ele estava usando uma blusa social azul escura e uma calça social preta, seus cabelos castanhos, quase negros, estavam bagunçados como se tivesse acabado de acordar. Seus olhos azuis estavam profundos, mas não estavam com uma expressão calma. Pelo contrário, a expressão era tensa, nervosa, como se quisesse arrancar meu coração com as mãos. Caminhou lentamente em minha direção e eu travei meus músculos.
– Você trabalha aqui? – Disparei.
– Não meu amor. – Ele sorriu ironicamente. Como eu odeio aquele sorriso – Estou aqui porque você me deve uma coisa.
– Já falei que eu não vou voltar. – Levantei os braços, olhando para ele, mas não fixamente em seus olhos – Quer que eu desenhe?
– Você acha mesmo que eu namoraria você? Por favor, Katherine, olhe só para você. Como distração você serve, assim como morta.
Meu primeiro instinto não foi correr nem gritar. Foi um instinto idiota, pois desafiei a fera.
– Puta que pariu, dá para parar de fumar? Está afetando o seu cérebro!
A resposta dele foi um riso e ele sacou uma arma. Tentou disparar em mim, mas eu chutei suas partes íntimas e saí correndo pelo corredor.
Enquanto corria, encontrei os estudantes e funcionários da faculdade dormindo. Aqueles corredores que estavam cheios de barulhos minutos atrás agora estavam vazios, como se não tivesse nada.
Cheguei ao banheiro, trancando a porta. Caminhei até o último Box e subi no vaso, me arrependendo por não ter forças o suficiente para arrancar o vaso e jogar na cabeça de Patrick.
– Kath, apenas um aviso. – era a voz dele – Eu atravesso as paredes.
A voz dele estava chegando bem perto. Meus ouvidos foram preenchidos pelo som de portas sendo chutadas e o som ficava cada vez mais próximo. Até que ele me encontrou.
– Adeus. – Mexeu em seu bolso.
Não queria levar um tiro, ainda mais dele. Antes de levantar sua arma, pulei em seu braço e o mordi com uma força até então desconhecida por mim – outra reação estúpida, mas não tive alternativa melhor – e peguei a arma que fora guardada em seu bolso, mirando nele assim que fiquei a uma distância favorável para correr.
– Sua… – Ele começou a falar, até que reparou que eu estava com a arma – Vai. Atire. Mostre sua coragem… Aquela que você não tem.
Ele levantou os braços e somente naquele momento eu reparei no que fiz.
Eu havia chutado Patrick e saído correndo.
Eu havia me escondido no banheiro.
Eu lutei com Patrick com o golpe mais idiota conhecido no mundo.
Eu consegui virar o jogo, não era mais a indefesa.
E o mais importante: não fazia a mínima ideia de como eu ia atirar nele ou o que eu faria com essa arma.
– Você tem bravura Katherine, não posso negar – Foi se aproximando – Mas não tem coragem de puxar o gatilho.
Mirei no teto e disparei nas três luzes do teto, quebrando-as. Enquanto Patrick se protegia dos cacos de vidro, fiz a coisa que eu faço de melhor: correr para longe, só que segurando uma arma desta vez.
Assim que saí do banheiro, esbarrei com o homem loiro que me encarou hoje mais cedo. Ele segurou meu pulso e seu olhar demonstrava ansiedade.
– Ele está morto? – Perguntou.
– Não, e eu peguei a arma dele.
Idiota. Isso não é uma coisa que se fala para um cara, ele pode estar trabalhando para o seu ex que pretende te matar.
– Ótimo. – Ele comentou – Vamos.
Não sabia quem ele era e nem se eu devia seguí-lo. Talvez esse fora meu primeiro erro – ou o meu primeiro acerto. Corremos até o final do corredor, onde tinha uma sala de aula. Ele me empurrou para dentro.
– Fique aqui e tranque a porta. Eu vou resolver isso.
Ele saiu e fechou a porta e eu tranquei, ficando no fundo a sala de aula, subindo em cima da janela que continha grades, impossibilitando a minha fuga. Ouvi golpes e estrondos do lado de fora, até ouvir um estrondo e a porta cair. Patrick.
– Já dei um jeito nele. – Ele sorriu – Agora é você.
Ele foi se aproximando rapidamente e eu tentei equilibrar a arma em minhas mãos. Quando ele estava apenas há três carteiras de distância, levantei a arma e atirei em seu ombro esquerdo. Patrick fez uma cara de dor e levou a mão direita até o ombro.
– Você atirou em mim! – Ele gritou enquanto ia ficando mais fraco – Agora largue a arma e lute.
– Não. – Dei outro tiro, dessa vez na canela dele, guardando a arma em meu bolso logo em seguida. A reação dele foi cair, gemendo de dor.
Aproximei-me lentamente de Patrick e saí correndo dele, porém ele puxou minha perna e eu caí, deixando a arma cair com certa distância de mim. O homem loiro que havia me ajudado puxou a minha mão com força e eu levantei, ficando ao seu lado.
– Você ainda está com a arma? – Ele perguntou e eu apontei para a arma que estava logo à frente – Se eu fosse você não olhava agora.
O homem pegou a arma e eu ignorei o aviso dele, continuei olhando. Ele mirou a arma para a testa de Patrick e atirou. O sangue dele ficou escorrendo até preencher o espaço entre as duas carteiras e passar um pouco para frente.
Senti a mão de Patrick afrouxar minha canela e eu saí. Esbarrei no homem, mas o empurrei e coloquei minhas mãos em meus ombros.
– Você o matou! – Falei – Você o matou! Sabe que pode ser preso?
Ele permaneceu em silêncio e colocou a arma na mão de Patrick, como se nada tivesse acontecido e olhou para mim.
– Meu nome é Elliot. – Falou.
– Quanto menos eu saber é melhor. – Falei – Assim eu não poderei ser presa em uma cela com você.
– Ah meu bem, ele ia morrer de todo jeito. – Elliot falou com calma – O tiro que você deu foi próximo demais do coração, ele ia ficar agonizando por mais alguns segundos.
Então ele iria morrer do mesmo jeito. E por minha culpa. Saí da sala e Elliot me seguiu. Olhei para ele e levantei a minha mão na tentativa de dar um tapa nele, mas ele segurou.
– O que pensa que está fazendo? – Ele perguntou e eu respirei profundamente, mordendo meu lábio inferior.
– Eu o matei. – Falei, com os olhos cheios de água – Eu o matei. Eu não acredito que fiz isso, eu…
– Você fez o que achou certo. – Elliot falou – Ele iria te matar.
– NÃO ERA MOTIVO PARA EU TIRAR A VIDA DELE! – Falei, com raiva – E agora ele…
Senti um vento vindo em minha direção e fechei os olhos. Era boa a sensação de não me preocupar tanto e me sentir bem. Dei uma inspirada profunda e respirei, abrindo os meus olhos com cuidado, como se eu fosse uma boneca de porcelana e encarei os olhos azuis que estavam em minha frente.
– Quer tomar um café? – Perguntei – Nós vamos em meu carro.
– Já vi que resistência não é o seu poder. – Ele sorriu.
– E por que não seria?
– Acabei de colocar um vento para te acalmar e funcionou.
– Não vale a pena ficar nervosa – Sorri – Vamos logo, minha cafeteria favorita é por aqui.
Eu estava caminhando tranquilamente entre as pessoas que estavam dormindo e achei fofo.
– Eles dormem tão profundamente. – Sorri e olhei para Elliot – É como se não preocupassem com nada e isso é fantástico.
– Acho que exagerei na dose do sonífero.
Continuei caminhando levemente até o estacionamento e ele foi me seguindo. Abri a porta do carro e liguei o rádio logo após ligar o automóvel. Elliot sentou-se ao meu lado e ficou me olhando com medo de mim. Mas eu não iria fazer nada, nunca fiz nada.
– Você parece estar assustado e com medo. – Falei, preocupada – O que eu fiz?
– Nada… – Ele falou – Você só está muito calma para alguém que eu tento controlar. Espere só um momento que eu tenho que acordar o pessoal.
Ele retirou a mão do carro, colocando-a na janela e estalou os dedos. Vi o segurança que estava dormindo acordando suavemente e sorri ao ver essa cena.
– Você é um mágico! – Falei – Quero aprender esse truque.
Ele olhou para mim assustado e estalou os dedos.
Pisquei duas vezes, olhei para frente e olhei para ele novamente. O que havia acontecido? Como eu cheguei até o meu carro? Por que ele está em meu carro?
– Saia do meu carro. – Falei.
Ele havia me controlado, como se eu fosse uma Barbie ou qualquer outra boneca plastificada. Eu estava querendo matá-lo de tanta raiva que eu estava sentindo naquele momento.
– Você voltou! – Ele falou – Agora vamos para a sua casa e vamos fazer as malas.
– Que porra é essa? – Soltei.
– Você tem boca suja!
– Você é um homem que parece ter trinta anos. – Eu tinha que atingí-lo de alguma forma, então usei a idade.
– Eu tenho vinte e seis anos.
– E está falando que eu falo palavrão! Homens na sua idade assistem futebol falando quatro palavrões em uma frase de cinco palavras.
– Não sou assim. – Ele falou, desligando o rádio – Fui criado para ser sempre cordial com todos.
Fiquei parada olhando para ele.
– Então me explique porque meu namorado queria me matar.
– Você não é o que pensa que é.
– Sobre o que você está falando?
– Humanidade.
– Se eu não sou humana, sou o quê? – Disparei – E se você falar gnomo por causa da minha altura…
– Primeiro, era para você estar morta. – Ele falou e eu fiquei calada, ainda sem dar partida no carro – Segundo, o que aconteceu de errado com você envolve o seu passado. Não somente o seu, mas o de seus pais. Você estava marcada para morrer desde o dia em que Martha falou “Estou grávida de você, John”.
Então esse era o nome do meu pai. Eu passei boa parte da minha infância perguntando sobre meu pai para a minha mãe, que sempre falava que ele trabalhava longe, mas que nos ajudava dessa forma.
– Você pode me levar até meu pai? – Perguntei – Tenho que perguntá-lo muita coisa.
– Não te levo até seu pai, pois seria uma missão suicida. – Ele falou – Ele te quer morta, Katherine. Sempre quis.
– No meu apartamento você me explicará tudo.
Meu apartamento não era muito longe dali e eu ainda facilitei as coisas andando mais rapidamente.
É estranho como a vida resolve te pregar umas peças de vez em quando. Nunca fiquei sabendo do meu pai durante toda a minha vida e agora sei de duas coisas: o nome dele é John e ele quer me matar. É tão bom conhecer sua árvore genealógica.
Elliot ligou o rádio cantarolava as diversas músicas que tocaram até chegar a meu prédio. Ele era verde esmeralda com o portão de um tom mais escuro. Havia um pequeno jardim na frente, cuidado pela senhora Maria Caires, uma dona de casa que havia comprado um apartamento aqui e pediu para o síndico cuidar do jardim.
Maria tinha pele negra e usava roupas de jardinagem rosa com seus cabelos pretos presos em um coque. Quando me viu entrando na garagem com Elliot, foi conversar comigo – até porque ela cuida de todas as plantas que ganhei de Patrick, já que toda planta que eu toco morre.
– Katherine! É tão bom te ver! – Ela falou com uma alegria que me assustou antes de olhar para Elliot – Eu sabia que você ia conseguir arrumar alguém mais bonito que o Patrick!
Ó céus, ó vida.
– Ele não é meu…
– Nós começamos recentemente senhora. – Ele falou com muita calma – E eu não queria visitar a casa dela tão cedo, mas ela é tudo que eu queria.
Rezei para que meu poder – caso eu tivesse algum, assim como Elliot tem – fosse torturar alguém mentalmente. Mas me enganei, porque Elliot continuava sentado sem agonizar de dor encolhido no carro.
– Tomara que desta vez ele seja o cara certo para você, afinal vocês ficam tão fofos juntos. – Maria sorriu – Não gostava daquele outro, o Patrick.
– Desculpe sair dessa forma Maria, mas nós dois temos algumas pendências para resolver. – Comecei, antes que ela falasse coisas como “Estou torcendo por vocês” ou “Estou no aguardo do convite de casamento” – E quanto mais cedo começa, mais cedo termina.
– Ela vai morar comigo.
Olhei para ele, ficando surpresa e repreendendo-o.
– Tudo bem então – Maria sorriu – Que Deus abençoe a vida de vocês.
Dei partida no carro após acenar para ela. Quando cheguei à minha vaga e estacionei, encarei Elliot.
– Eu sei que sou bonito, mas não precisa me olhar assim. – Ele falou e me olhou logo em seguida – Pelo menos foi algo que ela queria ouvir e ficou feliz em saber que você estava com outro e se eu contasse que você matou Patrick, ela ia ficar mais feliz ainda.
– Não ouse. – Apontei meu dedo para ele. Tirei a chave da ignição após desligar o carro – Vamos subir, anda.
Ele já havia voltado a usar a camiseta manchada com sangue quando saímos do estacionamento. No hall de entrada do prédio só havia o porteiro que estava muito concentrado com um livro que tinha uma chama entre o círculo pegando fogo.
Subi de elevador com Elliot, já que meu apartamento ficava no quinto andar.
– Você mora aqui desde… – Ele começou com a conversa assim que apertei o botão com o número cinco.
– Tem um tempinho já, quase dois anos.
– E você gosta de viver aqui?
– Eu gosto de lugares calmos, então eu gostei daqui. Mas sempre que quero sair para algum outro lugar eu saio sem hesitar.
– Você não ficou com medo quando eu me aproximei. Por quê?
Suspirei profundamente.
– Você pareceu querer me ajudar e eu admiro isso. Mesmo não sabendo que eu estava entrando em uma fria pior do que aquela que eu estava.
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Juki

Graduanda em letras e canceriana de 22 anos na identidade, mesmo com cara de 17. Apaixonada por games, música e literatura, viciada em animes e mangás e louca por chocolate.

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