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11 de janeiro de 2015
Acordar com o som do despertador é a coisa mais clichê que eu já vi na minha vida. E é a coisa mais clichê que geralmente acontece com todos, menos comigo, geralmente eu acordo minutos – ou horas – antes do meu celular resolver acordar o prédio inteiro, mas hoje a situação foi diferente.
Eram seis e meia da manhã, horário que eu já devia estar tomando café, mas estou aqui tomando o meu banho e pensando na vida. Não em qualquer vida, na minha vida.
Eu me tornei um ser humano totalmente comum. Não havia feito nada de extraordinário ou algo que pudessem usar contra mim no futuro. Meus netos terão a avó com histórias mais chatas possíveis, pois ela nunca fez nada de muito importante na vida, tirando o fato que fez economia enquanto os parentes viviam falando que eu devia fazer filosofia.
Levantei-me de meu sofá cama que estava com lençol branco vagarosamente, como se eu tivesse todo o tempo do mundo para ir ao serviço. Caminhei pelo piso frio de cerâmica e, ao sair do meu quarto, entrei logo no banheiro e fui em direção a pia, pegando a pasta de dente e colocando em minha escova de dente, pois iria fazer minha higiene bucal enquanto deixo o condicionador agir.
Saí do chuveiro e olhei para o meu rosto, concluindo que eu estava seguindo corretamente as instruções da nutricionista de beber mais água, pois meu rosto estava perfeito.
Coloquei minha “roupa de trabalhar” – uma calça social e uma blusa também social, todas as duas peças eram pretas, assim como a minha bota – e fui tomar meu café da manhã, mas desanimei e saí sem comer nada, qualquer coisa compro um café e um pão de queijo no caminho.
Peguei a bolsa que estava acima do meu sofá e saí de meu pequeno apartamento, caminhando até a porta ao lado, a do meu vizinho Ian. Eu e Ian tínhamos a mesma idade e fazíamos aniversário no mesmo dia, o que era até engraçado, pois somos totalmente o oposto.
Ele atendeu a porta no segundo toque e eu tive que brincar com ele.
– Estava passando a maquiagem? – Perguntei entre gargalhadas.
– Você continua péssima para contar piadas.– Ele respondeu, rindo – Vamos?
– Claro.
Entramos no elevador devagar, já que ficávamos no sétimo andar e íamos até o estacionamento. 
– Como que foi a balada ontem? – Perguntei.
– Terrível. – Ele respondeu – Tinha uma menina que estava me encarando, mas ficou com outro.
Olhei para ele com dó. Ou fingindo ter dó.
– Não fica assim, vai dar certo. Eu tenho um plano mesmo quando eu não tenho.
– Essa frase já está muito batida.
Ian considerava-se irresistível. Afinal, ele tinha olhos azuis, cabelos negros e estava sempre usando roupa social por causa da faculdade de direito que estava adorando fazer – tanto que está fazendo o último semestre agora por conta das opcionais.
Cheguei ao estacionamento desligando o alarme do meu pequeno Uno Mille cor vinho e entrei no lado do motorista enquanto Ian entrou no banco do carona.
– Vai arrumar as coisas do seu histórico hoje? – Ele perguntou – Vai ficar mais rica…
– Vou sim, uma hora da tarde. – Sorri – O post it está até aqui.
Peguei o post it que estava na buzina e amassei com calma, deixando-a ao lado de onde costumo colocar os papéis de bala. 
Suspirei aliviada. Iria pegar o histórico na minha faculdade para entregá-lo no setor de Recursos Humanos do meu prédio, a fim de conseguir um aumento em meu salário.
Dei partida no carro e Ian ligou o rádio em uma estação de músicas contemporâneas e comecei a andar para a faculdade dele.
– Vou me formar daqui a alguns meses e não sei quem levo para a formatura… – Ele falou e deu de ombros – Mas vou estar chapado de todo jeito, então não sei se vale a pena.
– Por favor, Ian. – Falei – Se você gritar na esquina vai aparecer um tanto de meninas querendo ir com você.
– Meninas? 
– Você entendeu.
Moramos em uma região de faculdade – longe da faculdade de Ian e do meu serviço – que ficava há alguns quilômetros bem rodados de nosso local de destino e, como eram quase sete horas da manhã, o trânsito estava cheio por ser quase o horário da primeira aula. Minha conclusão: nunca sair às sete horas da manhã para ir trabalhar sendo que você mora perto de uma faculdade, o trânsito pode ficar – e vai ficar – mais complicado.
– Não acredito nesse trânsito! – Ian falou – Quando eu preciso chegar cedo, ele engarrafa. Agora, quando eu faço o trabalho da primeira aula, o trânsito flui. Eles me odeiam?
– Boa pergunta Ian. – Falei – Acho que isso é um sinal para ficarmos em casa.
– Eu tenho prova.
– E estava na balada ontem… Bonita essa atitude senhor Silva.
– Você conhece meus métodos.
Ele sorriu e conferi as horas. Faltavam quinze minutos para as seis, eu nunca ia conseguir comer um bom café da manhã e ir para o serviço. Peguei meu celular e entreguei para Ian.
– Ian, encaminha um SMS para o Alfredo, meu colega de serviço, pedindo para ele comprar comida para mim, por favor?
– Ok. – Ele pegou e começou a digitar – O que quer que eu escreva?
– “Alfredo, vou atrasar um pouco. Tem como você comprar um pão de queijo e um café para mim? Eu vou te pagar”.
– Você é direta. – Ele mexeu os dedos com uma alta velocidade – Enviado.
– Você é rápido.
– Tenho habilidade em mexer com touchscreen, meu computador vive indo para o conserto. – Meu celular apitou – Olha, a resposta.
– Leia.
– “Vou cobrar juros. Mentira, você pode contar comigo que vou deixar tudo na sua mesa. E corre que hoje a Margareth vai olhar as pendências”.
– Meu Deus, hoje é sexta-feira? – Perguntei.
– Sim, achou que era quinta-feira?
– Sim, tanto que eu até me programei para sair mais cedo amanhã. – Tirei uma mão do volante e dei um tapa em minha testa – Ai meu Deus, vou ter que aprender a voar agora.
– Eu apoio essa ideia.
Olhei para o relógio do rádio e faltavam cinco minutos, minha sorte é que, naquela altura do campeonato, eu já estava no centro da cidade e sorri com aquilo.
Peguei um atalho até a faculdade de Ian, que desceu rapidamente, como se fosse uma bala disparada de um gatilho. Minha sorte é que o meu serviço ficava exatamente na esquina e eu estacionei na porta, peguei minha bolsa e saí correndo para o meu quarto.
Encontrei Oscar na recepção. Ele era negro, alto e estava usando o uniforme da empresa e folheava uma revista pacientemente quando me viu e abaixou o objeto. Joguei a chave do meu carro no ar e ele pegou.
– Estaciona o meu carro, por favor. – Falei enquanto subia as escadas correndo.
Entrei em meu departamento, reparando nas mesas de madeira branca que estavam organizadas e limpas. Peguei o controle do ar condicionado e liguei o aparelho ao mesmo tempo em que ligava meu computador e logo após isso, sentei em minha. O pão de queijo e a nota fiscal estavam em cima de minha mesa e eu os guardei ao mesmo tempo que ouvi a minha porta abrindo. Bingo!
Ouvi o barulho de passos lentos em salto alto e virei-me para a porta. Margareth estava lá, usando um vestido branco com cinto vermelho marcando a cintura e um blazer preto por cima. Seus cabelos loiros estavam na altura do ombro e perfeitamente arrumados, da mesma forma que sua unha estava pintada de vermelho sem um erro, como se ela tivesse acabado de sair do salão de beleza. 
– Senhorita Blaut, bom dia. – Ela falou e esticou seu braço.
Levantei-me e apertei sua mão com firmeza, da maneira na qual ela admira – afinal, já havia me falado para apertar sua mão com mais firmeza – e sorri.
– Bom dia senhora Batista.
– Está mais calma agora? Eu vi você correndo na recepção.
– Sim. – Falei – Eu tinha uma pendência grande para resolver, mas resolvi a tempo. – Dei um sorriso tímido – Fiquei com medo de não conseguir… Sabe como é.
– Eu imagino como deve ser. – Ela falou e se virou – Pelo visto está tudo bem por aqui. E você vai olhar o seu histórico hoje mesmo?
– Sim. – respondi – Vou ir à faculdade em meu horário de almoço, mas tenho medo de atrasar… Afinal, você sabe como é que as coisas funcionam lá na faculdade.
– É, eu sei. – Ela sorriu – Qualquer coisa, você pode me procurar.
Ela saiu e caminhei seus passos com o olhar até que ela fechou a porta. Abri a gaveta com pressa e peguei o meu pão de queijo, dando uma mordida logo em seguida e senti o gosto do alimento quente descendo em minha garganta e meu estômago praticamente berrar “ainda bem que você não se esqueceu de mim”.
Ouvi a porta se abrindo novamente e sorri ao ver que era só Oscar com a chave do meu carro.
– Como diriam os ETs do filme Toy Story – Brinquei enquanto balançava a cabeça à medida que imitava a voz dos personagens – Salvou nossas vidas, somos eternamente gratos.
– Sei Katherine. – Ele riu – Você acha que vai dar certo ficar nessa brincadeira que você fica?
– Mal não faz. – Sorri – Você devia ser mais positivo Oscar!
– Não vai funcionar. – Ele falou, indo para a porta – A vida me obriga a ser realista.
– Helena brigou com você de novo?
– Ela disse que não quer mais me ver.
– A piranha vai voltar para o mar?
Ele me encarou com raiva.
– Desculpe-me Oscar, mas aquela mulher consegue ser mais piranha que todas as piranhas do filme “Piranha” juntas.
– O que a Helena te fez?
– Ficou com todos os caras que eu gostava desde a pré-escola, exceto você. – Bufei – Nunca vou superar o fato de ela ter beijado o Victor logo após eu comentar com ela que eu gostava dele. Aquela piranha, aposto que pegou Patrick quando eu estava com ele.
Ele fechou a porta e continuei a comer o meu pão de queijo. Oscar era um azarado na única coisa que ele acreditava mais que tudo, ou seja, o amor. Mas ele havia escolhido uma mulher não muito boa de relacionar, mas ele é movido pela beleza das pessoas, não ligando se ela vai a uma festa bem animada e volta sem as roupas íntimas ou se ela já dormiu com metade da cidade.
Terminei o meu pão de queijo e me levantei com cuidado, caminhando em direção à cozinha para pegar um café.
A cozinha ficava próxima aos banheiros e era muito pequena, sendo composta por uma geladeira, uma pia e uma cafeteira.  Encontrei Alfredo pegando um café na máquina e sorri.
Ele estava usando uma blusa branca e calça jeans, que destacavam a sua pele morena e seus cabelos claros.
– Tenho que te pagar. – Falei – Passe na minha sala depois, senhor Silva.
– Será um prazer senhorita Blaut. – Rimos.
Eu e Alfredo fizemos os dois primeiros semestres da faculdade juntos, depois ele resolveu pegar transferência para contabilidade e perdemos um pouco do contato, mas nos reencontramos no dia da admissão da empresa. Se fosse algum tipo de combinado não iria dar muito certo.
Assim que ele pegou o seu café, peguei um copo plástico transparente e configurei a máquina para enchê-lo.
– Tem algum plano para o horário de almoço? – Ele perguntou e eu sorri.
– Pegar meu histórico e passar na ala de recursos humanos da minha empresa para tentar ficar rica. – Falei – Mas só tentar, as chances de que eu consiga são poucas.
– Você e seus planos. Já pensou em fazer stand up? 
– Acho melhor não. Se eu custei para conseguir um emprego com uma faculdade e uma pós em mente, imagina para conseguir um lugar para eu fazer piada? Vou ficar com fome.
Ele começou a rir e eu sorri para ele.
– Estou falando sério! – Comentei – Acho melhor eu continuar aqui.
– Mas você tem talento para muito mais.
– Quem sabe eu faça faculdade de cinema depois? Eu não sei…
– Sério Katherine? – Ele perguntou – Você consegue fazer coisas que a ciência duvida. É de surpreender como você ainda não foi presa.
– Eu apenas faço o que penso, não há motivo para eu ser presa por isso, eu hein.
Rimos mais ainda.
– Vou indo, tenho que preparar as coisas para deixar para o meu estagiário. – Sorri timidamente – Qualquer coisa, você pode me ligar.
– Claro que vou ligar! – Ele falou com uma voz irônica e levantou os braços – Eu tenho que cobrar o dinheiro do pão de queijo, pois um real e vinte centavos vai mudar minha vida.
– Se eu te pagar em moeda e o Luciano Hulk te parar na rua, vai mudar a sua vida. 
Rimos novamente e eu peguei o meu café antes de caminhar em direção à escada com passos calmos. Entrei em minha sala com a mesma calma que antes e inseri minha senha no computador, abrindo o Outlook logo em seguida.
Bebi um gole do meu café, que me ajudou a ficar dormindo menos. Café só fazia efeito em mim após o segundo copo cheio, eu já estava tão acostumada com isso que nem me preocupava o fato de possivelmente ter uma gastrite logo em seguida.
Olhei em meu e-mail e não havia nenhuma providência para resolver, então optei por conferir se a demanda de pagamentos estava correta e encaminhar para o banco, mas resolvi apenas conferir por conta do tempo, já que agora eram quase nove horas da manhã.
Fui conferindo cada processo e os separei em dois blocos, separados por notas autoadesivas – eu chamo de post it, mas meu estagiário começou com “post it é a marca, o nome é nota autoadesiva” e eu acostumei a falar dessa forma – com os nomes “banco” e “corrigir”. 
Conferi novamente no relógio. Onze horas da manhã.
Eu havia passado a manhã inteira organizando os pagamentos e agora teria que sair. Escrevi um recado em uma folha de rascunho de A4 para o meu estagiário.
Bruno,
Separei os pagamentos na forma de post its – pois essa é a marca e é mais fácil de falar do que notas autoadesivas. Os que estão escritos “banco”, você pode despachar o mais rápido possível para pagamento e os marcados com “corrigir”, encaminhe-os novamente para o departamento solicitante. Não sei se demorarei na faculdade, mas qualquer coisa me ligue no celular.
Katherine.
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Juki

Graduanda em letras e canceriana de 22 anos na identidade, mesmo com cara de 17. Apaixonada por games, música e literatura, viciada em animes e mangás e louca por chocolate.

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  1. Kamila Raupp

    7 de maio de 2015

    Oii!

    Amiga, seu livro é muito bom!
    Já pensou em mandar para alguma editora publicar?
    Se eu fosse você faria isso 😉
    Parabéns <3

    Beijos, Kamila
    http://www.vicio-de-leitura.com